Seção: Sim, tem na Netflix!
Não dá para negar. Trabalho é trabalho, nunca vai ser uma coisa divertida (caso contrário, não se chamaria trabalho, certamente). Porém, existe uma minoria de pessoas que tem a sorte e o privilégio de trabalhar fazendo uma coisa com a qual se identificam imensamente, que acreditam naquilo e conseguem ter prazer no trabalho.
Mas, como eu disse, é uma minoria. Para a maioria de nós, que trabalha para pagar as contas, nos resta aproveitar um pouco desse dinheiro para fazer coisas que a gente realmente gosta. Como ir ao cinema, por exemplo.
Eu não pensei em nada disso quando entrei numa sala de cinema, no meio do ano passado, para assistir o filme Chef, atualmente disponível no catálogo a Netflix.
Eu pouco sabia sobre o filme. Sabia que era uma comédia do Jon Favreau, diretor dos três Homem de Ferro, com o Robert Downey Jr. no elenco e que contava uma história sobre um chef de cozinha. E o fato é que, no fim das contas, eu saí do cinema muito satisfeito e revi o filme recentemente na TV e me diverti bastante.
Vamos ao filme.
Começo dizendo que é um filme óbvio. Não espere surpresas, um roteiro mirabolante cheio de reviravoltas ou algo parecido. Trata-se de um misto de comédia romântica, road movie e drama familiar. Em resumo, um chef renomado trabalha num restaurante conceituado de Los Angeles, mas perde o emprego por causa de uma confusão no Twitter e acaba indo até Miami para conseguir um trailer e ganhar dinheiro com um food truck. No meio disso, ele tenta se aproximar de seu filho pré adolescente e conviver com sua ex-esposa.
Como eu disse, é um filme bem óbvio. Depois da primeira meia hora, você já tem uma boa ideia de como tudo vai terminar. Mas, como eu sempre digo, o caminho que nos levará até este final é o que importa. E foi neste caminho que Jon Favreau acertou a mão.
Favreau escreveu, produziu, dirigiu e protagonizou o longa. Acho que isso já explica muita coisa. Sem medo de ser piegas, é um filme com muito amor envolvido. Certamente, era uma coisa que ele queria muito fazer e só conseguiu realizar depois de ganhar créditos na indústria cinematográfica com os filmes do Homem de Ferro e respaldo do próprio Downey Jr. (sabidamente, amigo de Favreau). E o legal é que ele não pirou com isso. Não quis fazer uma obra de arte, uma coisa experimental, com fotografia rebuscada. Tudo foi feito na simplicidade, com muita leveza.
O roteiro é linear e bem escrito. Não tem exageros. É engraçado na medida, tem bons diálogos e conduz o espectador com eficiência. A direção também não tem grandes truques. Favreau apostou na simplicidade e beleza. O filme é muito alegre e colorido, até porque há muito da cultura latina do sul dos Estados Unidos na história, pois eles passam por Miami, New Orleans, Atlanta...onde a cultura cubana, porto riquenha e mexicana são muito presentes.
As atuações são o ponto alto do filme, com certeza. O elenco é estelar. O próprio Jon Favreau protagoniza o longa interpretando o chef Carl Casper e se mostra muito à vontade frente às câmeras. Scarlett Johanssen está ótima interpretando Molly, amiga e confidente de Carl, Robert Downey Jr. faz uma participação bem engraçada interpretando um empresário excêntrico, Dustin Hoffman é o dono do restaurante onde Carl trabalha e a Sofia Vergara está irresistível como Inez, a ex-esposa de Carl.
Ainda entra nesta receita uma trilha sonora saborosíssima, com muita música latina, rumbas e salsas, além de um pouco de southern rock e blues.
Todos esses elementos combinados, resultam num filme divertido e empolgante. Desses que você pode ver bem mais de uma vez sem se cansar, ideal para um domingo de tarde sem nada para fazer.
Eu tenho uma percepção muito pessoal sobre este filme. Foi a impresão que eu tive ao assistí-lo no cinema. Sinto que o filme é tão fácil de agradar porque foi feito com muita alegria. Tive a impressão que Jon Favreau realizou esse projeto como uma realizaão pessoal, sem pensar muito no retorno da indústria cinematográfica. Me parece que ele fez tudo do jeito dele, ele sabia tão bem como ele queria cada detalhe, que ficou tudo parecendo muito natural na tela.
Da mesma maneira que, após assistir The Wonders, o divertidíssimo filme de Tom Hanks, eu fiquei louco para montar uma banda e tocar por aí melodias dançantes, também saí do cinema super afim de aprender a cozinhar e ver beleza na gastronomia depois de assistir Chef. Com certeza, este filme me influenciou muito quano tomei a decisão de fazer o curso de gastronomia do Senac no começo deste ano, que realizei com êxito (sic).
Só isso, já faz dele, um filme valioso.
Valeu muito a pena assistir!
Bom apetite.
sexta-feira, 28 de agosto de 2015
CINEMA DE BOM GOSTO
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terça-feira, 18 de agosto de 2015
ACERTOU NO CORAÇÃO (E EXPLODIU MINHA CABEÇA)
Seção: Em Cartaz.
Antes de falarmos sobre o filme propriamente, falemos brevemente sobre cinema em geral.
Para quem não sabe, eu moro numa cidade de pouco mais de duzentos mil habitantes. Sendo assim, as opções de filmes em cartaz nos dois cinemas da cidade são bem limitados. São sempre blockbusters e que ficam em cartaz por semanas. Quando temos a sorte de aparecer algum filme diferente, de algum autor pouco conhecido ou de fora das grandes corporações, há de se aproveitar de imediato, pois ficam, no máximo, uma semana em cartaz.
É o capitalismo. Eu entendo. Da mesma maneira, também consumo vorazmente os tais blockbusters! Fui ao cinema e me diverti assistindo o novo Jurassic Park, ou os filmes da Marvel. Mas de vez enquando, faz bem respirar outros ares e assistir filmes diferentes, com conceitos e linguagens diferentes. Para isso, infelizmente, é necessário ir a São Paulo e procurar aqueles poucos cinemas que apresentam uma programação diferente, exibindo filmes estrangeiros (franceses, argentinos...), documentários e filmes independentes.
Foi num desses cinemas de São Paulo que eu vivi mais uma grande experiência numa sala de cinema e vim aqui contar e recomendar para você.
Na Próxima, Acerto no Coração (no original, La Prochaine Fois Je Viserai le Coeur) é um filme francês lançado em 2014. Confesso que, quando li o título do filme, sem saber sinopse e nem nada, pensei tratar-se de um filme romântico...algum drama sobre um amor não correspondido. Esta foi a primeira surpresa: o filme é baseado em acontecimentos reais, conta a história de um serial killer que matou várias garotas entre 1978 e 1979 na região de Oise, norte da França.
O longa é escrito e dirigido por Cédric Anger, um diretor muito competente, responsável por filmes como O Pequeno Tenente e O Homem que Elas Amavam Demais, ambos com boa repercussão aqui no Brasil. Mas é em Na Próxima, Acerto no Coração que ele alcança, de fato, uma grandiosidade cinematográfica. Tudo no filme funciona bem. A ambientação, o roteiro, a montagem e fotografia, as atuações e uma tensão contínua devastadora!
Para começar, o espectador na sala de cinema é transportado para a época em que a história se passa, o final dos anos 70. Não sei dizer se foi o uso de filtros na objetiva das câmeras, efeitos de computação na pós produção ou algo do tipo, mas o filme parece ter sido filmado naquela época. Não só a qualidade da imagem, mas a fotografia é muito calcada nos filmes da época, com câmera tremida em momentos de tensão, cortes secos e algumas cenas longas em plano sequência. Outra característica que ajuda a dar um clima desolador é que a fotografia valoriza muito as cores frias. Não há vivacidade no filme. Tudo é meio mórbido, cinzento ou azulado.
Outra surpresa vem logo no início do filme. Nas duas primeiras cenas, já é revelado quem é o assassino, no que ele trabalha e como é sua rotina. Não tem aquele mistério de não saber quem é o assassino. Logo de cara, o espectador já fica o conhecendo. A tensão só cresce à medida que o filme avança e as chances de ele ser pego aumentam. Este é o grande trunfo do roteiro. Apresentar com profundidade o assassino, porém, não fazer com que o espectador simpatize com ele. Em momento algum você vai torcer por ele. Por isso, o filme é tão pesado. As cenas de violência vão se repetindo. A cada garota que ele mata, fica mais evidente sua loucura.
Guillaume Canet interpreta o personagem principal, Franck Neuhart, de maneira perturbadora. Não deve ser fácil dar vida a um personagem tão complexo, com uma dupla personalidade tão marcante, com tantos problemas para se relacionar, tão amargo e introvertido, porém, muito inteligente. Ana Girardot também se destaca como Sophie, a garota que trabalha para Franck e acaba se apaixonando por ele.
Com certeza, é um filme que, para ser absorvido mais intensamente, funciona melhor na sala de cinema. A imersão na história é total. Se por um lado, o espectador se envolve com a história, por outro, a tensão ininterrupta faz com que o filme pareça ter bem mais que as corriqueiras duas horas de duração (não que isso seja demérito). Enquanto o filme está sendo exibido, mal se ouve as pessoas respirando na sala, tamanha a tensão. É uma experiência angustiante, mas maravilhosa de se viver. Coisas que só o cinema de verdade faz por você.
Saí da sala de cinema impressionado. Observei que as pessoas conversavam baixinho ao sair da sala, muitos respirando fundo, aliviados. Me lembrei muito de quando assisti Seven no cinema e tive a mesma experiência de tensão, principalmente com aquele final desesperador.
Voltando ao começo deste texto, eu adoro e me divirto muito com as grandes produções de Hollywood. Compro as ideias e entro na dança, vibro vendo dois dinossauros gigantes brigando, ou super heróis combatendo alienígenas.
Mas, também faz muito bem para a alma assistir um filme autoral tão bem feito e ter uma experiência de imersão tão impactante numa sala de cinema.
Seja de Hollywood, da França, da Argentina ou do Brasil, nada é mais valioso que uma história bem contada e um saco de pipocas para acompanhar a viagem.
Antes de falarmos sobre o filme propriamente, falemos brevemente sobre cinema em geral.
Para quem não sabe, eu moro numa cidade de pouco mais de duzentos mil habitantes. Sendo assim, as opções de filmes em cartaz nos dois cinemas da cidade são bem limitados. São sempre blockbusters e que ficam em cartaz por semanas. Quando temos a sorte de aparecer algum filme diferente, de algum autor pouco conhecido ou de fora das grandes corporações, há de se aproveitar de imediato, pois ficam, no máximo, uma semana em cartaz.
É o capitalismo. Eu entendo. Da mesma maneira, também consumo vorazmente os tais blockbusters! Fui ao cinema e me diverti assistindo o novo Jurassic Park, ou os filmes da Marvel. Mas de vez enquando, faz bem respirar outros ares e assistir filmes diferentes, com conceitos e linguagens diferentes. Para isso, infelizmente, é necessário ir a São Paulo e procurar aqueles poucos cinemas que apresentam uma programação diferente, exibindo filmes estrangeiros (franceses, argentinos...), documentários e filmes independentes.
Foi num desses cinemas de São Paulo que eu vivi mais uma grande experiência numa sala de cinema e vim aqui contar e recomendar para você.
Na Próxima, Acerto no Coração (no original, La Prochaine Fois Je Viserai le Coeur) é um filme francês lançado em 2014. Confesso que, quando li o título do filme, sem saber sinopse e nem nada, pensei tratar-se de um filme romântico...algum drama sobre um amor não correspondido. Esta foi a primeira surpresa: o filme é baseado em acontecimentos reais, conta a história de um serial killer que matou várias garotas entre 1978 e 1979 na região de Oise, norte da França.
O longa é escrito e dirigido por Cédric Anger, um diretor muito competente, responsável por filmes como O Pequeno Tenente e O Homem que Elas Amavam Demais, ambos com boa repercussão aqui no Brasil. Mas é em Na Próxima, Acerto no Coração que ele alcança, de fato, uma grandiosidade cinematográfica. Tudo no filme funciona bem. A ambientação, o roteiro, a montagem e fotografia, as atuações e uma tensão contínua devastadora!
Para começar, o espectador na sala de cinema é transportado para a época em que a história se passa, o final dos anos 70. Não sei dizer se foi o uso de filtros na objetiva das câmeras, efeitos de computação na pós produção ou algo do tipo, mas o filme parece ter sido filmado naquela época. Não só a qualidade da imagem, mas a fotografia é muito calcada nos filmes da época, com câmera tremida em momentos de tensão, cortes secos e algumas cenas longas em plano sequência. Outra característica que ajuda a dar um clima desolador é que a fotografia valoriza muito as cores frias. Não há vivacidade no filme. Tudo é meio mórbido, cinzento ou azulado.
Outra surpresa vem logo no início do filme. Nas duas primeiras cenas, já é revelado quem é o assassino, no que ele trabalha e como é sua rotina. Não tem aquele mistério de não saber quem é o assassino. Logo de cara, o espectador já fica o conhecendo. A tensão só cresce à medida que o filme avança e as chances de ele ser pego aumentam. Este é o grande trunfo do roteiro. Apresentar com profundidade o assassino, porém, não fazer com que o espectador simpatize com ele. Em momento algum você vai torcer por ele. Por isso, o filme é tão pesado. As cenas de violência vão se repetindo. A cada garota que ele mata, fica mais evidente sua loucura.
Guillaume Canet interpreta o personagem principal, Franck Neuhart, de maneira perturbadora. Não deve ser fácil dar vida a um personagem tão complexo, com uma dupla personalidade tão marcante, com tantos problemas para se relacionar, tão amargo e introvertido, porém, muito inteligente. Ana Girardot também se destaca como Sophie, a garota que trabalha para Franck e acaba se apaixonando por ele.
Com certeza, é um filme que, para ser absorvido mais intensamente, funciona melhor na sala de cinema. A imersão na história é total. Se por um lado, o espectador se envolve com a história, por outro, a tensão ininterrupta faz com que o filme pareça ter bem mais que as corriqueiras duas horas de duração (não que isso seja demérito). Enquanto o filme está sendo exibido, mal se ouve as pessoas respirando na sala, tamanha a tensão. É uma experiência angustiante, mas maravilhosa de se viver. Coisas que só o cinema de verdade faz por você.
Saí da sala de cinema impressionado. Observei que as pessoas conversavam baixinho ao sair da sala, muitos respirando fundo, aliviados. Me lembrei muito de quando assisti Seven no cinema e tive a mesma experiência de tensão, principalmente com aquele final desesperador.
Voltando ao começo deste texto, eu adoro e me divirto muito com as grandes produções de Hollywood. Compro as ideias e entro na dança, vibro vendo dois dinossauros gigantes brigando, ou super heróis combatendo alienígenas.
Mas, também faz muito bem para a alma assistir um filme autoral tão bem feito e ter uma experiência de imersão tão impactante numa sala de cinema.
Seja de Hollywood, da França, da Argentina ou do Brasil, nada é mais valioso que uma história bem contada e um saco de pipocas para acompanhar a viagem.
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terça-feira, 11 de agosto de 2015
HISTÓRIA SEM FIM
Seção: Sim, tem na Netflix!
Acredito que viver em sociedade nunca foi fácil e jamais será. Somos tão diferentes. Minha maneira de pensar pode ser oposta à sua. E é engraçado como, sendo tão diferentes, somos todos iguais. Somos seres humanos afim de sobreviver, ser amados, ter uma vida confortável, acreditar no que quisermos e nos expressar.
O problema é que muita gente, desde que o mundo é mundo, acha que é melhor que o outro. E tenta convencer mais gente de que isso é verdade. No antigo Egito, os reis e faraós já se diziam superiores, faziam com que algumas pessoas se convencessem de que aquilo era verdade e escravizavam aqueles que julgavam inferiores. Com certeza isso já acontecia antes dos egípcios, mas não há registros históricos. E isso seguiu acontecendo mundo afora desde então em escalas cada vez maiores, isso é fato consumado.
Até que no século vinte, começaram a aparecer ideias de igualdade de raça e credo com uma frequência cada vez maior. Pessoas passaram a defender tais ideais, muitas vezes levando-os às últimas (e trágicas) consequências. Passamos pelo Holocausto, pelo Muro de Berlim, pelo Apartheid e o mundo foi ficando cada vez mais consciente de que a justiça e a paz só podem, de fato, serem estabelecidas, com a igualdade entre toda a humanidade.
Hoje, são raros os casos de preconceito e ideais de supremacia racial. #sqn
Justamente porque não é bem assim, que o filme A Outra História Americana continua impressionante e imensamente realista, mesmo depois de quase vinte anos de seu lançamento.
A Outra História Americana (no original, American History X) foi lançado em 1998. Conta a história de Derek e Danny Vinyard, dois irmãos que acabam entrando numa gangue de skinheads neo-nazistas, após a morte de seu pai. Derek, o mais velho, é um líder nato, mas acaba preso por matar dois negros. Danny, o mais novo, idolatra o irmão mais velho e parece seguir o seu caminho.
Mas na prisão, Derek percebe o mundo como ele realmente é. Todo mundo é igual, principalmente quando se trata de maldade.
Quando sai da prisão, ele precisa fazer com que seu irmão mais novo não trilhe o mesmo caminho que o levou a ser preso.
Sim, é uma temática bem pesada, e o filme não fica atrás. É denso, angustiante, porém, conta a história de maneira irresistível, com flashbacks e narrações em off de Danny. O Roteiro é de David McKenna, um excelente contador de histórias que também escreveu o roteiro do divertido filme Profissão de Risco. McKenna é detalhista nos diálogos e sabe do poder das palavras, mostrando como uma conversa na mesa de jantar entre pais e filhos, aparentemente inofensiva, pode carregar uma dose gigantesca de preconceito e influenciar um jovem inseguro, com sua personalidade ainda em formação. A fluidez da história contada de maneira entrecortada por flashbacks é instigante e consegue prender o espectador.
A direção é de Tony Kaye, um diretor com muita experiência em documentários. Isso quer dizer que o filme tem cenas bem fortes e realistas. Mas também, Kaye foi o responsável pela fotografia, e o fez de maneira brilhante. Os flashbacks em preto e branco são esteticamente incríveis e muitas outras cenas têm uma fotografia linda. A estética de todo o longa é invejável.
Para completar, as atuações estão no mesmo alto nível do roteiro e direção. Edward Norton interpreta o protagonista Derek Vinyard. Norton está em seu auge neste filme. A diferença de personalidade de antes e depois da prisão que ele consegue demonstrar somente com a expressão facial é impressionante. E ele ainda viria a se superar no ano seguinte no espetacular Clube da Luta.
Edward Furlong, mas conhecido por interpretar John Connor no Exterminador do Futuro 2, também está ótimo no papel de Danny, um garoto confuso tentando ser aceito.
O filme ainda conta com as ótimas atuações de Beverly D'Angelo, Avery Brooks, Guy Torry, Jennifer Lien e Fairuza Balk.
Assisti este filme pela primeira vez na época de seu lançamento. Eu tinha uns 16 ou 17 anos e lembro que fiquei impressionado. Acho que foi a primeira vez que tomei consciência que, depois de tudo o que vivemos e estudamos nos livros de história, ainda tem gente que compra o idealismo absurdo e desumano propagado pelos nazistas. A cena em que o personagem Derek Vinyard mata cruelmente dois negros na calçada de sua casa não saiu da minha cabeça desde então.
Mas então, por que assistir um filme tão perturbador?
Porque precisamos ser constantemente lembrados que esse tipo de violência, em escalas menores ou maiores, acontece no mundo todo, inclusive no seu bairro, na sua rua, numa frequência alarmante, ainda hoje em dia. E, como o filme bem mostra, não se trata somente de sociopatas doentes com pensamentos extremos. Trata-se de conversas inocentes no balcão do bar, na mesa do almoço ou na hora do café durante o trabalho. Não se trata apenas de negros sendo desrespeitados. São imigrantes em geral que não são tratados com humanidade, gays brutalmente agredidos, deficientes físicos tratados com descaso...a lista vai longe.
A Outra História Americana mostra que qualquer um pode ser iludido num momento de vulnerabilidade. Que quanto mais você se envolve, mais difícil é sair ileso. Que quando a indignação vira ódio, nada pode ser justificável.
Mostra que viver em sociedade é mais difícil do que se imagina.
Mas é possível.
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terça-feira, 4 de agosto de 2015
DE DENTRO PARA FORA
Seção: Em Cartaz.
A produção cinematográfica tem mudado muito.
Enquanto despontam novas e criativas histórias no cinema latino americano (especialmente Argentina e Brasil), Hollywood parece que vem perdendo a mão quando o se fala de cinema autoral, original.
É verdade que grandes produções vem sendo realizadas com êxito. Mas, são todas baseadas em histórias conhecidas. Recentemente, assistindo aos trailers numa sala de cinema, vi que vem por aí um novo filme contando a história do Peter Pan, toneladas de filmes fielmente baseadas em histórias em quadrinhos estão por vir...já fizeram remake de Mad Max, reciclaram O Exterminador do Futuro, Jurassic Park...tudo muito legal, admito. Grandes efeitos e diversão garantida na sala de cinema.
Mas de vez enquando, bate aquela saudade de um roteiro original. Uma história nova que ninguém contou ainda, capaz de te emocionar, te fazer sorrir, gargalhar, refletir.
Isso faz uma falta danada.
Eis que fui esses dias ao cinema ver a mais recente produção da Disney/Pixar, Divertida Mente (no original, Inside Out - um título muito melhor que esta tradução porca, diga-se) lançado em 2015, escrito e dirigido pela dupla Pete Docter e Ronaldo Del Carmen.
Vale uma ressalva sobre esta dupla. Peter Docter escreveu os maiores clássicos da Pixar: Toy Story (e suas sequências) Monstros SA, Wall E e UP - Altas Aventuras. Ronaldo Del Carmem é diretor de arte e e responsável por Universidade Monstros, Ratatouille, UP - Altas Aventuras e alguns episódios do saudoso desenho animado da Warner Freakazoid.
Ou seja, já começamos bem!
Já tenho que começar dizendo que o filme é encantador.
Conta a história da pequena Riley, uma garotinha feliz, apaixonada por hóquei no gelo que precisa se mudar de sua cidadezinha natal no frio estado de Minessota para a ensolarada San Francisco, California. Essa mudança se junta a fase complicada da transição da infância para a pré-adolescência.
Isso tudo é mostrado da perspectiva dos sentimentos de Riley: A Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Nojinho.
O espectador acompanha como funciona a cabeça e os sentimentos da criança. Como são armazenadas as memórias, os principais pilares da personalidade que começa a se formar, a amizade, família, o hóquei e a diversão.
Só por esta plote, o longa já desponta como o filme mais criativo do ano!
Mas vai muito além.
À medida que a trama vai avançando, as memórias de Riley são abaladas, a Tristeza começa a imprimir sua marca enquanto a Alegria tenta tomar conta de tudo. O que faz deste roteiro algo impressionante. Questionador, introspectivo...tão palpável para qualquer um. E tudo isso com muita leveza. Um filme voltado para as crianças, mas feito para atingir os adultos.
Vi o filme dublado em português. E, mais uma vez, os brasileiros acertaram em cheio e fizeram uma dublagem incrível usando celebridades. Para ficar nos três principais, Miá Mello dublou a Alegria, Otaviano Costa o Medo e Dani Calabresa, divertidíssima e irreconhecível dublou a Nojinho. Mas toda a dublagem está incrível e merece os parabéns!
Como sempre, a Pixar caprichou na arte. Muitas cores nas cenas de diversão, mas soube usar sobretons e muitas sombras nos momentos mais tensos e ótimos ângulos.
Eu sei, é muito elogio, e parece exagero.
Mas não é. Trata-se de um filme belíssimo que faz qualquer cidadão de bem que já passou por desilusões, tristezas e momentos de descrença e medo, assim como teve uma infância repleta de maluquices, brincadeiras e muita imaginação ir fatalmente às lágrimas.
Eu posso dizer que saí do cinema de alma lavada e acabei refletindo bastante sobre o meu crescimento. Como a tristeza, sim a tristeza, fez de mim uma pessoa melhor e mais serena hoje. Percebi que essa harmonia de sentimentos é algo inalcançável, mas delicioso de se buscar.
Hoje, antes de dormir, pense que cada um dos seus sentimentos, a Alegria, o Medo, a Raiva, o Nojinho...cada um é uma pessoa. Feche os olhos e imagine essas pessoinhas todas dentro de você se abraçando. Tenho certeza que você vai se sentir bem.
E se você tiver visto o filme, e ao fazer isso, escorrer uma lágrima, não se preocupe.
São eles deixando tudo limpinho aí dentro para você dormir bem e ter ótimos sonhos.
Boa noite.
A produção cinematográfica tem mudado muito.
Enquanto despontam novas e criativas histórias no cinema latino americano (especialmente Argentina e Brasil), Hollywood parece que vem perdendo a mão quando o se fala de cinema autoral, original.
É verdade que grandes produções vem sendo realizadas com êxito. Mas, são todas baseadas em histórias conhecidas. Recentemente, assistindo aos trailers numa sala de cinema, vi que vem por aí um novo filme contando a história do Peter Pan, toneladas de filmes fielmente baseadas em histórias em quadrinhos estão por vir...já fizeram remake de Mad Max, reciclaram O Exterminador do Futuro, Jurassic Park...tudo muito legal, admito. Grandes efeitos e diversão garantida na sala de cinema.
Mas de vez enquando, bate aquela saudade de um roteiro original. Uma história nova que ninguém contou ainda, capaz de te emocionar, te fazer sorrir, gargalhar, refletir.
Isso faz uma falta danada.
Eis que fui esses dias ao cinema ver a mais recente produção da Disney/Pixar, Divertida Mente (no original, Inside Out - um título muito melhor que esta tradução porca, diga-se) lançado em 2015, escrito e dirigido pela dupla Pete Docter e Ronaldo Del Carmen.
Vale uma ressalva sobre esta dupla. Peter Docter escreveu os maiores clássicos da Pixar: Toy Story (e suas sequências) Monstros SA, Wall E e UP - Altas Aventuras. Ronaldo Del Carmem é diretor de arte e e responsável por Universidade Monstros, Ratatouille, UP - Altas Aventuras e alguns episódios do saudoso desenho animado da Warner Freakazoid.
Ou seja, já começamos bem!
Já tenho que começar dizendo que o filme é encantador.
Conta a história da pequena Riley, uma garotinha feliz, apaixonada por hóquei no gelo que precisa se mudar de sua cidadezinha natal no frio estado de Minessota para a ensolarada San Francisco, California. Essa mudança se junta a fase complicada da transição da infância para a pré-adolescência.
Isso tudo é mostrado da perspectiva dos sentimentos de Riley: A Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Nojinho.
O espectador acompanha como funciona a cabeça e os sentimentos da criança. Como são armazenadas as memórias, os principais pilares da personalidade que começa a se formar, a amizade, família, o hóquei e a diversão.
Só por esta plote, o longa já desponta como o filme mais criativo do ano!
Mas vai muito além.
À medida que a trama vai avançando, as memórias de Riley são abaladas, a Tristeza começa a imprimir sua marca enquanto a Alegria tenta tomar conta de tudo. O que faz deste roteiro algo impressionante. Questionador, introspectivo...tão palpável para qualquer um. E tudo isso com muita leveza. Um filme voltado para as crianças, mas feito para atingir os adultos.
Vi o filme dublado em português. E, mais uma vez, os brasileiros acertaram em cheio e fizeram uma dublagem incrível usando celebridades. Para ficar nos três principais, Miá Mello dublou a Alegria, Otaviano Costa o Medo e Dani Calabresa, divertidíssima e irreconhecível dublou a Nojinho. Mas toda a dublagem está incrível e merece os parabéns!
Como sempre, a Pixar caprichou na arte. Muitas cores nas cenas de diversão, mas soube usar sobretons e muitas sombras nos momentos mais tensos e ótimos ângulos.
Eu sei, é muito elogio, e parece exagero.
Mas não é. Trata-se de um filme belíssimo que faz qualquer cidadão de bem que já passou por desilusões, tristezas e momentos de descrença e medo, assim como teve uma infância repleta de maluquices, brincadeiras e muita imaginação ir fatalmente às lágrimas.
Eu posso dizer que saí do cinema de alma lavada e acabei refletindo bastante sobre o meu crescimento. Como a tristeza, sim a tristeza, fez de mim uma pessoa melhor e mais serena hoje. Percebi que essa harmonia de sentimentos é algo inalcançável, mas delicioso de se buscar.
Hoje, antes de dormir, pense que cada um dos seus sentimentos, a Alegria, o Medo, a Raiva, o Nojinho...cada um é uma pessoa. Feche os olhos e imagine essas pessoinhas todas dentro de você se abraçando. Tenho certeza que você vai se sentir bem.
E se você tiver visto o filme, e ao fazer isso, escorrer uma lágrima, não se preocupe.
São eles deixando tudo limpinho aí dentro para você dormir bem e ter ótimos sonhos.
Boa noite.
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