Seção: Sim, tem na Netflix!
Acredito que viver em sociedade nunca foi fácil e jamais será. Somos tão diferentes. Minha maneira de pensar pode ser oposta à sua. E é engraçado como, sendo tão diferentes, somos todos iguais. Somos seres humanos afim de sobreviver, ser amados, ter uma vida confortável, acreditar no que quisermos e nos expressar.
O problema é que muita gente, desde que o mundo é mundo, acha que é melhor que o outro. E tenta convencer mais gente de que isso é verdade. No antigo Egito, os reis e faraós já se diziam superiores, faziam com que algumas pessoas se convencessem de que aquilo era verdade e escravizavam aqueles que julgavam inferiores. Com certeza isso já acontecia antes dos egípcios, mas não há registros históricos. E isso seguiu acontecendo mundo afora desde então em escalas cada vez maiores, isso é fato consumado.
Até que no século vinte, começaram a aparecer ideias de igualdade de raça e credo com uma frequência cada vez maior. Pessoas passaram a defender tais ideais, muitas vezes levando-os às últimas (e trágicas) consequências. Passamos pelo Holocausto, pelo Muro de Berlim, pelo Apartheid e o mundo foi ficando cada vez mais consciente de que a justiça e a paz só podem, de fato, serem estabelecidas, com a igualdade entre toda a humanidade.
Hoje, são raros os casos de preconceito e ideais de supremacia racial. #sqn
Justamente porque não é bem assim, que o filme A Outra História Americana continua impressionante e imensamente realista, mesmo depois de quase vinte anos de seu lançamento.
A Outra História Americana (no original, American History X) foi lançado em 1998. Conta a história de Derek e Danny Vinyard, dois irmãos que acabam entrando numa gangue de skinheads neo-nazistas, após a morte de seu pai. Derek, o mais velho, é um líder nato, mas acaba preso por matar dois negros. Danny, o mais novo, idolatra o irmão mais velho e parece seguir o seu caminho.
Mas na prisão, Derek percebe o mundo como ele realmente é. Todo mundo é igual, principalmente quando se trata de maldade.
Quando sai da prisão, ele precisa fazer com que seu irmão mais novo não trilhe o mesmo caminho que o levou a ser preso.
Sim, é uma temática bem pesada, e o filme não fica atrás. É denso, angustiante, porém, conta a história de maneira irresistível, com flashbacks e narrações em off de Danny. O Roteiro é de David McKenna, um excelente contador de histórias que também escreveu o roteiro do divertido filme Profissão de Risco. McKenna é detalhista nos diálogos e sabe do poder das palavras, mostrando como uma conversa na mesa de jantar entre pais e filhos, aparentemente inofensiva, pode carregar uma dose gigantesca de preconceito e influenciar um jovem inseguro, com sua personalidade ainda em formação. A fluidez da história contada de maneira entrecortada por flashbacks é instigante e consegue prender o espectador.
A direção é de Tony Kaye, um diretor com muita experiência em documentários. Isso quer dizer que o filme tem cenas bem fortes e realistas. Mas também, Kaye foi o responsável pela fotografia, e o fez de maneira brilhante. Os flashbacks em preto e branco são esteticamente incríveis e muitas outras cenas têm uma fotografia linda. A estética de todo o longa é invejável.
Para completar, as atuações estão no mesmo alto nível do roteiro e direção. Edward Norton interpreta o protagonista Derek Vinyard. Norton está em seu auge neste filme. A diferença de personalidade de antes e depois da prisão que ele consegue demonstrar somente com a expressão facial é impressionante. E ele ainda viria a se superar no ano seguinte no espetacular Clube da Luta.
Edward Furlong, mas conhecido por interpretar John Connor no Exterminador do Futuro 2, também está ótimo no papel de Danny, um garoto confuso tentando ser aceito.
O filme ainda conta com as ótimas atuações de Beverly D'Angelo, Avery Brooks, Guy Torry, Jennifer Lien e Fairuza Balk.
Assisti este filme pela primeira vez na época de seu lançamento. Eu tinha uns 16 ou 17 anos e lembro que fiquei impressionado. Acho que foi a primeira vez que tomei consciência que, depois de tudo o que vivemos e estudamos nos livros de história, ainda tem gente que compra o idealismo absurdo e desumano propagado pelos nazistas. A cena em que o personagem Derek Vinyard mata cruelmente dois negros na calçada de sua casa não saiu da minha cabeça desde então.
Mas então, por que assistir um filme tão perturbador?
Porque precisamos ser constantemente lembrados que esse tipo de violência, em escalas menores ou maiores, acontece no mundo todo, inclusive no seu bairro, na sua rua, numa frequência alarmante, ainda hoje em dia. E, como o filme bem mostra, não se trata somente de sociopatas doentes com pensamentos extremos. Trata-se de conversas inocentes no balcão do bar, na mesa do almoço ou na hora do café durante o trabalho. Não se trata apenas de negros sendo desrespeitados. São imigrantes em geral que não são tratados com humanidade, gays brutalmente agredidos, deficientes físicos tratados com descaso...a lista vai longe.
A Outra História Americana mostra que qualquer um pode ser iludido num momento de vulnerabilidade. Que quanto mais você se envolve, mais difícil é sair ileso. Que quando a indignação vira ódio, nada pode ser justificável.
Mostra que viver em sociedade é mais difícil do que se imagina.
Mas é possível.

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