Seção: Em Cartaz.
Antes de falarmos sobre o filme propriamente, falemos brevemente sobre cinema em geral.
Para quem não sabe, eu moro numa cidade de pouco mais de duzentos mil habitantes. Sendo assim, as opções de filmes em cartaz nos dois cinemas da cidade são bem limitados. São sempre blockbusters e que ficam em cartaz por semanas. Quando temos a sorte de aparecer algum filme diferente, de algum autor pouco conhecido ou de fora das grandes corporações, há de se aproveitar de imediato, pois ficam, no máximo, uma semana em cartaz.
É o capitalismo. Eu entendo. Da mesma maneira, também consumo vorazmente os tais blockbusters! Fui ao cinema e me diverti assistindo o novo Jurassic Park, ou os filmes da Marvel. Mas de vez enquando, faz bem respirar outros ares e assistir filmes diferentes, com conceitos e linguagens diferentes. Para isso, infelizmente, é necessário ir a São Paulo e procurar aqueles poucos cinemas que apresentam uma programação diferente, exibindo filmes estrangeiros (franceses, argentinos...), documentários e filmes independentes.
Foi num desses cinemas de São Paulo que eu vivi mais uma grande experiência numa sala de cinema e vim aqui contar e recomendar para você.
Na Próxima, Acerto no Coração (no original, La Prochaine Fois Je Viserai le Coeur) é um filme francês lançado em 2014. Confesso que, quando li o título do filme, sem saber sinopse e nem nada, pensei tratar-se de um filme romântico...algum drama sobre um amor não correspondido. Esta foi a primeira surpresa: o filme é baseado em acontecimentos reais, conta a história de um serial killer que matou várias garotas entre 1978 e 1979 na região de Oise, norte da França.
O longa é escrito e dirigido por Cédric Anger, um diretor muito competente, responsável por filmes como O Pequeno Tenente e O Homem que Elas Amavam Demais, ambos com boa repercussão aqui no Brasil. Mas é em Na Próxima, Acerto no Coração que ele alcança, de fato, uma grandiosidade cinematográfica. Tudo no filme funciona bem. A ambientação, o roteiro, a montagem e fotografia, as atuações e uma tensão contínua devastadora!
Para começar, o espectador na sala de cinema é transportado para a época em que a história se passa, o final dos anos 70. Não sei dizer se foi o uso de filtros na objetiva das câmeras, efeitos de computação na pós produção ou algo do tipo, mas o filme parece ter sido filmado naquela época. Não só a qualidade da imagem, mas a fotografia é muito calcada nos filmes da época, com câmera tremida em momentos de tensão, cortes secos e algumas cenas longas em plano sequência. Outra característica que ajuda a dar um clima desolador é que a fotografia valoriza muito as cores frias. Não há vivacidade no filme. Tudo é meio mórbido, cinzento ou azulado.
Outra surpresa vem logo no início do filme. Nas duas primeiras cenas, já é revelado quem é o assassino, no que ele trabalha e como é sua rotina. Não tem aquele mistério de não saber quem é o assassino. Logo de cara, o espectador já fica o conhecendo. A tensão só cresce à medida que o filme avança e as chances de ele ser pego aumentam. Este é o grande trunfo do roteiro. Apresentar com profundidade o assassino, porém, não fazer com que o espectador simpatize com ele. Em momento algum você vai torcer por ele. Por isso, o filme é tão pesado. As cenas de violência vão se repetindo. A cada garota que ele mata, fica mais evidente sua loucura.
Guillaume Canet interpreta o personagem principal, Franck Neuhart, de maneira perturbadora. Não deve ser fácil dar vida a um personagem tão complexo, com uma dupla personalidade tão marcante, com tantos problemas para se relacionar, tão amargo e introvertido, porém, muito inteligente. Ana Girardot também se destaca como Sophie, a garota que trabalha para Franck e acaba se apaixonando por ele.
Com certeza, é um filme que, para ser absorvido mais intensamente, funciona melhor na sala de cinema. A imersão na história é total. Se por um lado, o espectador se envolve com a história, por outro, a tensão ininterrupta faz com que o filme pareça ter bem mais que as corriqueiras duas horas de duração (não que isso seja demérito). Enquanto o filme está sendo exibido, mal se ouve as pessoas respirando na sala, tamanha a tensão. É uma experiência angustiante, mas maravilhosa de se viver. Coisas que só o cinema de verdade faz por você.
Saí da sala de cinema impressionado. Observei que as pessoas conversavam baixinho ao sair da sala, muitos respirando fundo, aliviados. Me lembrei muito de quando assisti Seven no cinema e tive a mesma experiência de tensão, principalmente com aquele final desesperador.
Voltando ao começo deste texto, eu adoro e me divirto muito com as grandes produções de Hollywood. Compro as ideias e entro na dança, vibro vendo dois dinossauros gigantes brigando, ou super heróis combatendo alienígenas.
Mas, também faz muito bem para a alma assistir um filme autoral tão bem feito e ter uma experiência de imersão tão impactante numa sala de cinema.
Seja de Hollywood, da França, da Argentina ou do Brasil, nada é mais valioso que uma história bem contada e um saco de pipocas para acompanhar a viagem.

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