terça-feira, 13 de outubro de 2015

GOOD VIBRATIONS

Seção: Em cartaz.

Estamos vivendo tempos difíceis. E não falo somente de crise política e financeira. Cada vez mais, vemos notícias, relatos e, até mesmo, sentimos na pele cenas de muito ódio e desprezo alimentados por preconceitos, ignorância e radicalismo. Fica difícil ter fé na humanidade, acreditar que as pessoas são boas.
Fica difícil acreditar que vale a pena fazer tudo o que for possível para salvar uma vida.
É por isso que o filme Perdido em Marte (The Martian), lançado neste ano, o mais recente trabalho de Ridley Scott, surpreende e vem muito a calhar.



Entrei na sala de cinema para assistir ao longa com baixas expectativas. Scott vem de um filme muito fraco, Prometheus, e sempre apresentou obras de ficção científica sombrias e desoladoras. E confesso que essas obras, como a franquia Alien, por exemplo, nunca me agradaram muito. Estava pronto para ver na tela um homem desiludido confinado num planeta sem quaisquer perspectivas.
Assim, fui surpreendido mais uma vez pela sétima arte.

Perdido em Marte é um filme vigoroso e muito leve, apesar das circunstâncias da história contada.
O longa conta a trajetória de Mark Watney, um astronauta que acaba sendo abandonado em Marte após um incidente que força a tripulação a deixar o planeta às pressas. Uma vez deixado para trás, ele precisa sobreviver por quatro anos, tempo necessário para que uma equipe de resgate chegue até ele. Acompanhamos sua rotina no planeta vermelho e, em paralelo, os esforços e politicagens da NASA para conseguir resgatá-lo.

De fato, o filme tem tudo para ser sombrio e pesado. Mas não é o que acontece. O roteiro de Drew Goddard, baseado no livro de Andy Weir, é leve e muito bem amarrado, sem se prender em pormenores científicos e explicações minuciosas que poderiam tornar a trama entediante. Goddard é um roteirista que usa a cultura pop a seu favor com maestria. Ele é responsável por filmes muito divertidos como Guerra Mundial Z, além de escrever alguns episódios da excelente série Demolidor, da Netflix.
Portanto, o roteiro apresenta um protagonista inteligente e bem humorado, que vai fazer tudo ao seu alcance para sobreviver, confiando que a NASA virá resgatá-lo. Ou seja, trata-se de um homem confiante e otimista. Entre seus monólogos em Marte e os diálogos entre a tripulação e o pessoal da Nasa, sempre tem uma ou outra referência pop, que dá muito mais sabor ao filme.

A direção de Ridley Scott é sempre muito bem executada, cuidadosa com os detalhes e com ótimos efeitos especiais (ainda que o 3D seja muito mal utilizado e quase nada acrescente á obra). É aqui onde a dramaticidade do filme se acentua, porém sem grandes exageros. Scott concebeu um Marte desértico e muito quente durante o dia, e gelado de noite. A fotografia é muito bem trabalhada, para passar a sensação de solidão, com planos bem abertos e, quando dentro das instalações espaciais, tudo sem muita cor nem som. A montagem também é digna de nota. O ritmo do filme é ótimo. Intercalando bem as cenas do personagem sozinho sobrevivendo em Marte e os esforços e conflitos da NASA para realizar o resgate.

Há também de exaltar o talento e carisma inesgotáveis de Matt Damon. Ele carrega o filme nas costas sem mostrar esforço nenhum. Seu carisma natural faz de Mark Watney um personagem muito fácil de se gostar. O que significa que você realmente torce muito por ele ao longo do filme. A atuação de Damon é primorosa, ele consegue ser otimista, mas também se mostrar desiludido e desesperado em alguns momentos.
O restante do cast é competente, mas nada que se sobressaia. Até mesmo o veterano e competente Jeff Daniels, que interpreta um dos responsáveis da NASA pela missão de resgate, fica meio apagado. Mas não é nada que comprometa o longa, já que todas as atenções estão mesmo voltadas para Matt Damon.

Para concluir, trata-se de um filme bem diferente do que estamos acostumados a receber de Ridley Scott quando se trata de sci-fi. Uma grata surpresa.
Um filme leve e divertido, que mostra a importância de não se perder a fé na vida. As metáforas se estendem ao longo do filme: saber encarar e vencer adversidades, aprender a lidar com as frustrações e derrotas. Não desistir. Recomeçar.

Perdido em Marte não é um filme que oferece apenas entretenimento de qualidade.
Ele nos traz alívio.
E, por isso, é muito bem vindo.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

NAVEGAR É PRECISO!

Seção: Sim, tem na Netflix!

Sabe aquela velha história de fazer uma coisa com coração, com alma? Não ter como objetivo principal dinheiro, ou reconhecimento, mas única e simplesmente satisfação pessoal?
Como um livro do Kerouac, ou um show do Paul McCartney, um disco do Rogério Skylab ou um filme do Cameron Crowe.
Às vezes acho que esse é o verdadeiro sentido da vida. Coisas feitas não por dinheiro ou reconhecimento. Mas porque fazer essa coisa faz com que você se sinta vivo.

Uma outra boa maneira de você visualizar o que eu estou tentando dizer aqui é assistindo ao excelente filme The Boat That Rocked (Os Piratas do Rock, aqui no Brasil).



Lançado em 2009, este longa britânico conta a história das rádios piratas que despejavam rock n' roll e pop aos ouvidos dos jovens ingleses cansados de música erudita e muita blá blá blá da BBC e demais rádios comerciais do Reino Unido.
Eram chamadas rádios piratas porque eram instaladas em velhos navios que ficavam ancorados nos gelados mares do norte da Inglaterra, a uma distância considerável da costa, longe das autoridades.
É em torno deste mundo que o roteiro do filme é ambientado, misturando realidade e ficção.

Um time de locutores que se revezam dia e noite na Radio Rock recebem a visita de Carl, enteado de Quentin, dono da rádio. Ali, entre sexo, disputas de egos e muito, mas muito mesmo, rock n' roll, Carl vai tentar descobrir quem é seu pai.
O humor britânico ácido e irônico dá o tom do filme, que não tem medo de ser politicamente incorreto e nem foge de clichês. Tudo na medida certa.
Ponto pra eles.

O crédito dessa rteceita de sucesso é de Richard Curtis, que escreveu e dirigiu o longa.
Curtis é um roteirista brilhante! Escreveu Quatro Casamentos e Um Funeral, O Diário de Bridget Jones, Simplesmente Amor e boa parte dos episódios da série de TV do personagem Mr. Bean.

Encabeçando o elenco está um dos melhores atores dos últimos tempos, o falecido Phillip Seymour Hoffman, que está impecável como The Count, um locutor apaixonado por rock n' roll.
O filme ainda tem os engraçadíssimos Bill Nighy e Nick Frost, além de vários atores não tão conhecidos, mas muito competentes.

Não preciso dizer que a trilha sonora é matadora, uma coletânea do que melhor se produziu em termos de pop e rock até 1967.

Esse é o tipo de filme que é complicadíssimo de se falar a respeito.
O filme é tão encantador e engraçado. Tão inspirador, tão divertido...que não dá pra ficar só no básico. Há a necessidade de citar cada personagem, cenas marcantes, cada canção maravilhosa da trilha sonora e assim por diante.
O que resultaria num texto enorme que ninguém aguentaria ler.

Portanto, em resumo, posso dizer o seguinte:
The Boat That Rocked é um filme brilhante, inspirador e muito engraçado.
Tem interpretações magníficas de atores como Phillip Seymour Hoffman e Nick Frost.
Foi escrito e dirigido pelo talentoso Richard Curtis, que escreveu Quatro Casamentos e Um Funeral.
Tem uma trilha sonora arrasadora.
É um filme que fala sobre amor às causas perdidas, sobre acreditar no que te faz feliz...e também sobre sexo, drogas e rock n' roll, porque ninguém é de ferro.

Se depois de ler isso você não se interessar pelo filme, sinceramente, não sei o que você está fazendo aqui lendo este blog.

Filme recomendadíssimo!

terça-feira, 29 de setembro de 2015

O LADO BOM DO FILME

Seção: Em Cartaz.

Sendo um grande fã de cinema desde muito jovem,  acompanhei algumas evoluções e retrocessos em várias esferas do cinema. Vi um diretor promissor como Tim Burton dar vida a grandes histórias e decair de maneira calamitosa em remakes desnecessários e espalhafatosos, de uns tempos para cá. Acompanhei também a evolução nítida de um grande talento como Richard Linklater, que deu vida ao irresistível casal Jesse e Celine, ir além de filmes românticos com o questionador Waking Life, o divertidíssimo Escola de Rock e o belo Boyhood.

Também acompanhei, e venho acompanhando, uma evolução interessantíssima na produção cinematográfica brasileira. Com o fim da ditadura militar, nos anos oitenta, as chanchadas, gradativamente, foram dando lugar a filmes carregados de críticas sociais. Nos anos noventa vieram produções como Central do Brasil e Auto da Compadecida, sempre exaltando um Brasil pobre. Destacaram-se filmes como Abril Despedaçado com uma linguagem mais poética, mas sempre mostrando o nordeste miserável. Depois, vieram Carandiru e Cidade de Deus. As produções melhoraram e novas linguagens foram adotadas. Mas ainda assim, não escapamos das críticas sociais. Até chegarmos nos tempos atuais, onde pipocam produções nacionais de qualidade, com grandes produções e roteiros que visam contar uma história, sem, necessariamente, fazer denúncias. O cinema brasileiro entendeu que também faz parte do jogo entreter o público.

Com isso em mente, fui ao cinema muito contente para assistir Entrando Numa Roubada, lançado neste ano, escrito e dirigido por André Moraes. Trata-se de um road movie de ação e comédia sobre roubos e trapaças. O trailer já havia despertado meu interesse e resolvi conferir o longa no cinema.
Vamos a ele então.



O filme conta a história de um grupo de amigos,  que fizeram um filme bem sucedido, mas acabaram todos em maus lençóis após serem enganados pelo produtor do filme, que ficou com todo o dinheiro arrecadado e se tornou pastor evangélico. Partindo daí, inicia-se uma sequência de enganações, trapalhadas e muitas cenas de ação em busca de vingança.
Walter é o diretor, Vitor é o roteirista, Eric e Laura são os atores e Alex é o produtor que enganou a todos.
Vitor ganha uma bolada como prêmio por um roteiro que escreveu e resolve juntar sua turma para filmar a história, que consiste em um trio que sai roubando postos de gasolina de um criminoso por vingança. Eric, quer se vingar de Alex e inventa com Walter uma história de filmar o roteiro com um novo método, ultra realista, e acabam saindo assaltando postos de gasolina para valer, juntando o dinheiro roubado, tudo articulado por Eric que quer acabar chegando até Alex para se vingar.
É um desses casos de filme dentro do filme.

É necessário começar dizendo que não se trata aqui de um grande filme. Ele se perde entre muitas pontas soltas da trama e personagens superficiais. O roteiro se faz valer de uma linguagem mais moderna, com narração em off de um dos personagens e várias reviravoltas. Porém, tudo é frouxo. A história vai se tornando rocambolesca e, a cada mudança na trama, razões para tais acontecimentos são deixadas de lado. As motivações dos personagens são fracas e, muitas vezes inverossímeis. Por exemplo, Laura e Vitor são levados a acreditar, por Eric e Walter, que os assaltos, perseguições...é tudo combinado. Mas a produção é tão desleixada, que qualquer um desconfiaria. A ingenuidade dos dois personagens é deprimente. O prêmio que Vitor ganha, ninguém explica de onde ele ganhou e como isso aconteceu. Acidentes fatais acontecem, policias morrem...e nada aparece na imprensa que faça com que eles sejam procurados por todos os lados.
Esses são alguns dos motivos que fazem com que o filme não seja convincente.
Mas existe o outro lado.

Apesar da superficialidade dos personagens, os atores estão muito à vontade em seus papéis e desempenham muito bem suas funções. O melhor deles é Marcos Veras, interpretando Alex com muito vigor, dando vida a um vilão inescrupuloso e, por vezes, engraçado. Lúcio Mauro Filho interpreta Walter e também se sai bem apresentando um jovem diretor com sérios problemas psicológicos tentando se manter são. Júlio Andrade é Eric, o ator indignado que busca vingança a qualquer preço. Deborah Secco é Laura, uma atriz ingênua e esforçada. Apesar do pouco com o que trabalhar no roteiro para embasar seus personagens, os atores se destacam em seus papéis.

André Moraes já é veterano no cinema nacional, mas como compositor de trilhas sonoras. Como diretor e roteirista é estreante. Ainda pode melhorar muito, mas já se mostra muito promissor. Apesar do roteiro cheio de falhas e pontas soltas, a direção e montagem do filme são saborosas. O ritmo alucinante, remetendo a Tarantino e Guy Ritchie, fazem com que o espectador não queira levantar da cadeira. As cenas de ação com efeitos especiais também são divertidíssimas. A fotografia com alguns ângulos fechados e contrastes ajudam a dar um clima e a trilha sonora, muito bem escolhida e bem utilizada, é a cereja no bolo.

Entre erros e acertos, o filme se mantém de pé e, se não se destaca muito, fica na média e faz valer o preço do ingresso pago. Indo além do filme em si, é muito legal perceber que o cinema brasileiro está se desenvolvendo e prezando pela diversidade, com ideias originais.
Se eu dei a entender que não gosto de filmes com críticas sociais no começo do texto, não me entenda mal. Eu gosto de cinema. E se o filme traz um retrato fiel de uma sociedade corrupta, mas é bem feito e conta a história com paixão e inteligência, eu vou gostar do filme, como adoro Cidade de Deus, Tropa de Elite e muitos outros. Mas também é legal podermos ver gente como o Fábio Porchat criando um drama tão bacana como o Entre Abelhas e comédias românticas divertidas como Meu Passado me Condena, o Afonso Poyart concebendo o surpreendente 2 Coelhos, o Heitor Dhalia com o tenso O Cheiro do Ralo, entre tantos outros.

Geralmente, o cinema pode ser um bom retrato da sociedade.
Se realmente for, podemos nos alegrar, pois estamos aprendendo a valorizar de verdade a diversidade.
Mas estamos só começando a aprender que tão importante quanto valorizar, é ter conteúdo.
Isso é uma crítica?
Entenda como quiser.
E vá ao cinema, de preferência para ver algum filme brasileiro.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

ALL YOU NEED IS LOVE...TO START.


Seção: Sim, tem na Netflix!

De tempos em tempos, nossa fé, nossa crença em nós mesmos e no mundo, é testada. Presenciamos, cada vez mais, todo o tipo de atrocidade. Desde maus tratos a animais até tortura e assassinato incentivados unicamente por preconceito e ignorância. E tais sentimentos se intensificam quando nos atingem diretamente. Um parente que morre de câncer prematuramente, alguém que você ama que te trai e te causa algum mal de maneira intencional, ou o simples fato de você se propor a fazer alguma coisa...qualquer coisa, por mais simples que seja, e falhar. Nessas horas você se pergunta:
“O que está errado neste mundo?”

Teoricamente, eu estou aqui para falar sobre um filme que eu assisti e gostei e quero sugerir para você. Teoricamente, você abriu este blog para ler sobre algum filme que você ainda não tenha visto e vai ver mais tarde, quando chegar em casa, do trabalho, e assistir enquanto come alguma besteira. Eu não posso falar por você e suas motivações.
Mas posso falar de mim.

Eu não venho aqui simplesmente para falar sobre um filme que eu gostei e acho que você vai gostar de ver também. Eu venho aqui para falar de mim. Venho aqui para liberar um pouco do turbilhão de pensamentos e sentimentos que me consomem diariamente. E eu faço isso com uma intenção que, se bem sucedida, causa uma consequência. Acredite ou não, eu venho aqui toda semana para tocar o seu coração. Eu escrevo essas linhas de madrugada pensando em várias pessoas que são especiais para mim e que podem gostar deste ou daquele filme. E fico torcendo para que essas pessoas leiam este texto e vejam o filme. Eu escrevo querendo tocar o coração de alguém que já viu o filme e que, ao ler este texto, se lembre de alguns trechos, e se emocione de novo. Esta é a intenção. Se esta intenção for minimamente bem sucedida, vem a consequência, que diz respeito ao meu bem estar diretamente. É quando alguém lê o texto, se comove de alguma maneira e eu fico sabendo disso. Seja por um comentário aqui no blog, uma curtida no facebook, uma palavra dita durante uma conversa entre amigos...
Não há sentimento melhor do que saber que eu consegui tocar um coração. Não há sorriso que baste para demonstrar tal satisfação.

E nós não sabemos como, exatamente, as coisas acontecem. Mas se a gente parar, mas parar mesmo, para prestar atenção ao nosso redor, vamos ver que tudo se conecta involuntariamente. Se eu bocejar na sua frente, você vai bocejar também. Se eu sorrir na sua frente, talvez você não sorria de imediato. Mas você vai lembrar do meu sorriso no meio do caminho para casa e vai sorrir pensando nisso. E, pode ser que, alguém que está ao seu lado no ônibus te veja sorrindo sozinho e acabe sorrindo discretamente também.
Nós somos parte de um todo.

Eu adoro saber que sou uma pessoa única. Cada vez mais, me reconheço como pessoa e desfruto da minha individualidade. Mas eu sei que, por mais que eu goste de ficar sozinho, eu preciso das pessoas. Eu preciso do amor. Preciso do carinho, preciso da ajuda, preciso dos conselhos, preciso das risadas, preciso dos cuidados. E também preciso amar, preciso dar carinho, preciso ajudar, preciso dar conselhos, preciso fazer rir, preciso cuidar. Não porque eu queira algo em troca. É porque, mais que tudo, meu corpo me diz isso tudo. Eu sinto falta.

É a reconciliação da ciência com a espiritualidade. Vivemos um mundo novo onde podemos acreditar em qualquer coisa. Existe tanta mudança, tantos avanços tecnológicos e filosóficos, que, apesar de toda a barbárie que ainda se faz presente em todo o mundo, ainda podemos acreditar que há um futuro promissor. Assim como o oceano, que aniquila toda uma cidade com um tsunami, mas que também alimenta milhares de pessoas e torna possível milhares de formas de vida, é feito de incontáveis gotas d’água, se todos acreditarem que mudanças são possíveis, podemos também tornar possível que muitas vidas sejam geradas e celebradas.
Quando John Lennon escreveu All You Need is Love, ele estava certo. Só faltou um complemento para tornar a canção perfeita.
Tudo o que você precisa é amor...para começar.
Com amor você começa a agir e pode fazer toda a diferença.

Tudo isso para dizer que o documentário I Am, do diretor  Tom Shadyac, acerta em cheio em sua proposta: Fazer com que o espectador pense na diferença que cada um faz no mundo.



Pode não ser um filme brilhante ou perfeito. Mas é bem escrito, impressiona por apresentar muitas informações científicas e algumas belas cenas.
O filme foi dirigido e escrito por Tom Shadyac, conhecido por dirigir grandes filmes de comédia como Ace Ventura, Patch Adams, Todo Poderoso, entre outros. Após sofrer um acidente sério, Shadyac passa por momentos sombrios e de muito questionamento. Quando começa a se recuperar, pega uma câmera e sai entrevistando grandes cientistas, filósofos e líderes religiosos sobre os problemas do mundo e da humanidade.
E o resultado de toda essa discussão é, ao mesmo tempo, dilacerante e maravilhoso.

Se eu não toquei seu coração com este texto, não tem problema. Não se sinta mal.
Mas, peço que você assista ao filme mesmo assim. Tenho certeza que ele pode te comover com mais facilidade.

Uma coisa eu posso te garantir. Vai valer a pena assistir.
E obrigado por estar aqui lendo.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

SOBRE O TEMPO

Seção: Em Cartaz

O tempo nos ensina muita coisa.
Eu nunca me canso de dizer o quanto sinto prazer em me perceber envelhecendo, tomando novas decisões, evitando alguns hábitos ruins que não me faziam bem no passado e, principalmente, me esforçando para simplificar tudo o que sempre achei muito complicado. Relacionamentos afetivos, vida profissional e etc. Se a gente encara a vida com simplicidade e sem grandes expectativas, tudo fica mais fácil.

Foi assim, sem grandes expectativas e esperando nada mais do que me divertir, que entrei numa sala de cinema para assistir Férias Frustradas (Vacation, título original), lançado em 2015. Com direção e roteiro de John Francis Daley e Jonathan M. Goldstein, o longa é baseado no filme Férias Frustradas (Vacation, título original), escrito por John Hughes, dirigido por Harold Ramis e lançado em 1983.



Primeiro, vamos falar brevemente sobre o Férias Frustradas de 1983. É um verdadeiro clássico. É uma das grandes comédias dos anos oitenta e um filme que não envelhece. Ainda hoje, é fácil de ser revisto e dar boas risadas. Foi criado por dois gênios do cinema para divertir as pessoas. Harold Ramis é responsável por filmes excelentes como Feitiço do Tempo, Ghostbusters e Máfia no Divã. Já o roteirista John Hughes escreveu a maioria dos grandes clássicos dos anos oitenta e noventa, como Clube dos Cinco, A Garota de Rosa Shocking, Antes Só do Que Mal Acompanhado, Gatinhas e Gatões, Curtindo a Vida Adoidado, Esqueceram de Mim, entre outros.
Isso significa que, se a dupla Daley e Goldstein esperava superar este original, teria que suar muito. Por sorte, eles não tiveram essa intenção.

Para falar então deste Férias Frustradas atual, vamos começar pela história.
A ideia dos roteiristas era revisitar o filme de 1983, sendo assim, criaram uma história onde Rusty Griswold resolve levar sua família, esposa e dois filhos, para uma viagem de carro pelos Estados Unidos que marcou sua infância: conhecer o Walley World, um parque de diversões com uma montanha russa gigantesca. No caso, Rusty é o filho de Clark Griswold, personagem de Chevy Chase no filme de 1983, onde Clark tem a mesma ideia, levar a família para Walley World. Assim está feita a conexão entre os dois filmes. Daí em diante, vão aparecer algumas referências ao filme original, mas, de maneira geral, é um filme novo, com piadas novas. E não deixa a desejar.

Uma das principais forças do filme, com certeza, é o elenco. Rusty é interpretado pelo ótimo Ed Helms, sempre muito engraçado interpretando tipos bobalhões bem intencionados. Sua esposa, Debbie, é interpretada por Christina Applegate, a eterna Kelly Bundy, do clássico seriado Married With Children, que também está muito bem no papel de esposa cansada, mas que tenta apoiar o marido em suas patacoadas. Os filhos do casal, James e Kevin, são interpretados por Skyler Gisondo e Steele Stebbins, respectivamente, e protagonizam algumas das cenas mais engraçadas do filme. Fora o núcleo familiar, o longa ainda conta com participações especiais e divertidíssimas de Charlie Day, um dos melhores atores de comédia da atualidade, e Chris Hemsworth, o Thor dos Vingadores, que faz uma participação impagável. Também participam brevemente o casal Chevy Chase e Beverly D’Angelo, para relembrar o filme de 83.

O roteiro não é ruim, mas tem seus defeitos. Funciona muito bem como esquetes, pois tem ótimas piadas. Mas não tem clímax, vai muito bem até certo ponto. Quando tem que dar aquela guinada para nos levar a um final empolgante, parece que o fôlego acaba. Mas não é algo que chega a prejudicar o filme como um todo. Tem um ritmo muito bom e, se não arranca gargalhadas a cada cena, mantém o expectador sempre sorrindo.
A parceria entre Daley e Goldstein é antiga, e vem trazendo ótimos resultados. Juntos eles escreveram os ótimos filmes Quero Matar Meu Chefe 1 e 2, a animação Está Chovendo Hambúrguer 2 e alguns episódios da divertida série Bones.
A direção dos dois funciona muito bem. Tem ritmo e ótimos cortes. Diferente do formato das comédias dos anos oitenta, com cenas longas, fades entre uma e outra, eles dão uma fluidez maior, explorando melhor a fotografia e dando mais agilidade ao filme.

Para concluir, é um filme que merece sim ser visto.
Quem viveu os anos oitenta e assistiu ao original de 1983, vai se divertir muito com as citações, a participação de Chevy Chase, a aparição do velho carro usado no filme original e coisas desse tipo.
Para quem é mais novo e não tem essa ligação, vai se divertir muito também, pois as piadas são muito boas, beirando o absurdo. Este é o grande trunfo da dupla Daley e Goldstein, eles conseguem criar situações tão absurdas que parecem tiradas de desenhos animados, e fazem piada com absolutamente tudo.

É um filme para ser encarado como a vida. Sem grandes expectativas e sem pensar no final. Apenas relaxe e aproveite a viagem.
Porque, no fim, é isso que faz tudo valer a pena.

Viver hoje.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

TUDO ACONTECE ONDE VOCÊ ESTIVER

Seção: Sim, tem na Netflix!

É muito legal entrar numa sala de cinema e se deparar com personagens heroicos, com poderes incríveis, ou vilões extremamente ardilosos e totalmente sem escrúpulos. Há também monstros, alienígenas, zumbis...personagens que você dificilmente vai encontrar andando pela rua.
É a magia do cinema. É fantasia.

Mas também faz parte do cinema nos apresentar personagens comuns. Gente que poderia ser comparada a mim ou a você. Personagens com quem você se identifica de imediato. Também faz parte do cinema nos emocionar, fazendo com que nos olhemos no espelho.

E neste aspecto, o diretor Cameron Crowe é um mestre.
Quem não se identificou com Tom Cruise em Jerry Maguire, ou com o inseguro Willian Miller em Almost Famous...? Até mesmo os personagens do Singles, jovens adultos crescendo, buscando relacionamentos...Este Singles, inclusive, um filme subestimado de Crowe.

Tocamos em três pontos cruciais no parágrafo acima para falar sobre o filme escolhido para hoje:
Cameron Crowe
Personagens "humanos demais"
Filme subestimado

Lançado em 2005, este filme foi recebido de forma morna por público e crítica. Mas apesar disso, é inegável que Elizabethtown (Tudo Acontece Em Elizabethtown, aqui no Brasil) é um filme brilhante, com personagens carismáticos, com profundidade e um roteiro emocionante.



O filme conta a história de Drew, que, após fracassar em seu grande projeto na empresa onde trabalha, recebe a notícia que seu pai está morto numa pequena cidade do Kentucky, Elizabethtown, e é convencido pela irmã e mãe a ir buscar o corpo para a cremação.

No avião, Drew conhece a encantadora aeromoça Claire que, por acaso, também é de Elizabethtown.
Acrescenta-se uma família com todos os tipos caricatos que toda família tem e que Drew não via há anos.
Pronto!
Temos uma história totalmente corriqueira, mas contada de forma inspirada.

Drew, o protagonista, é interpretado por Orlando Bloom (mais conhecido por Legolas, de Senhor dos Anéis e Will Turner de Piratas do Caribe). É um ator que, sinceramente, nunca me despertou grande admiração. Mas está impressionante neste filme. É o tipo de personagem que, pelo menos em uma cena, você vai se identificar com ele. Ele dá uma humanidade, uma realidade, ao personagem, que chega a emocionar. Principalmente nos momentos em que ele está sozinho na estrada.

A aeromoça Claire é interpretada por Kirsten Dunst, a eterna Mary Jane, de Homem Aranha. E ela está ainda mais apaixonante neste Elizabethtown. Uma garota sensível e sincera, mas que parece sempre esconder alguma coisa...algum sentimento que não quer que as pessoas percebam. A interpretação dela aqui está espetacular.

Mas todos os créditos vão para Cameron Crowe.
Um dos poucos diretores autorais da atualidade, e um dos mais talentosos, diga-se de passagem.
Crowe escreve e dirije este filme com uma riqueza de detalhes impressionante.
A começar pelo roteiro. Interessante, cheio de diálogos irresistíveis, voltas e reviravoltas, surpresas, um humor delicado que permeia o filme todo, mas também uma carga dramática intensa.
Nunca vi ninguém falar sobre fracasso e busca por superação com tanta humanidade como Cameron Crowe consegue fazer.

Para completar, o longa conta com uma trilha sonora maravilhosa, com Tom Petty, The Hollies, The Temptations, Elton John, Ryan Adams...
A fotografia do filme é cuidadosa, principalmente destacando a paisagem ao longo da viagem de Drew pelos Estados Unidos.
E, por fim, a montagem é esperta, sem exageros de cortes, ou flash backs forçados deixa o filme leve, com muita naturalidade.

É um filme que todo mundo deveria ver.
Porque todo mundo já fracassou feio.
Todo mundo já pensou no pior.
Todo mundo é, pelo menos um pouco, inseguro.
Todo mundo luta pra se reerguer.
Todo mundo chora.
Todo mundo se apaixona.
Todo mundo se aventura.

Todo mundo vive. E sofre as consequências boas e ruins de viver.

Tudo acontece em Elizabethtown.
Tudo acontece em São Paulo.
Tudo acontece em Marília.
Tudo acontece, seja lá onde você viva.

Filme mais que recomendado, obrigatório!

terça-feira, 1 de setembro de 2015

SOBRE COISAS BELAS E TRISTES

Seção: Em Cartaz.

Você já reparou como é comum admirarmos e considerarmos bela alguma obra de arte que transmita tristeza, desamparo ou solidão? Em todas as áreas. Fotografias do Sebastião Salgado, telas do Monet, os tangos de Carlos Gardel, os poemas de Baudelaire...e a lista se vai longa.
Talvez seja uma simples questão de identificação, ou desperte o sentimento de pena. A verdade é que a tristeza faz parte de nós e, talvez, sua força seja tão intensa que, simplesmente, não conseguimos minimizá-la ou ignorá-la.
Aliás, aprendemos isso de forma muito didática e interessante com a Pixar muito recentemente.

Pois bem. Sendo assim, fui ao cinema assistir a mais nova adaptação para o cinema de  O Pequeno Príncipe, o clássico de Antoine de Saint-Exupéry, o livro de cabeceira de qualquer miss que se preze. Uma obra muito particular, que parece não envelhecer e que, de fato, é muito contundente. Sabendo disso, eu não esperava um filme leve e divertido. Mas também não contava com a abordagem tão profunda apresentada.
Mas vamos com calma.



O Pequeno Príncipe (The Little Pince, no original) é uma produção francesa e norte americana lançada em agosto de 2015 aqui no Brasil. Com direção de Mark Osborne e roteiro de Irena Brignull e Bob Persichetti, o filme é muito convincente e primoroso nos detalhes.

O filme já ganha pontos por não tomar o livro como roteiro pura e simplesmente. Os roteiristas criaram uma história onde poderiam inserir o livro de maneira honesta e direta. O filme começa contando a história de uma garotinha que tem sua vida milimetricamente planejada pela sua mãe para que ela cresça e seja uma adulta bem sucedida. Uma crítica válida sobre a obsessão do sucesso profissional e dos padrões sociais a qualquer custo. Ao se mudarem de casa, mãe e filha acabam tendo como vizinho um excêntrico senhor de idade que tem um avião no quintal de casa e tenta fazê-lo funcionar, muitas vezes incomodando a vizinhança. O velhinho e a garota acabam se aproximando e ele lhe mostra algumas páginas do que seria uma espécie de diário. É onde o livro entra, literalmente, pois o senhor de idade é o piloto que encontra o pequeno príncipe no deserto e a história se desenrola à partir daí. Mas a história e as parábolas do livro vão aparecendo enquanto a história da garotinha é contada, sua amizade com o velho piloto, a mãe da garotinha que a força cumprir seu rigoroso cronograma e como as duas histórias vão se entrelaçando.

A dupla de roteiristas é iniciante e se deu muito bem. Conseguiu contar a história de maneira coesa e emocionante. Os diálogos do livro são muito impactantes e foram muito bem aproveitados. Em paralelo, os diálogos entre a garota e o velho piloto também são emocionantes. A carga dramática do roteiro chega a impressionar e  me fizeram pensar como as crianças encarariam o filme. Afinal, é uma animação e é sim, uma produção voltada para crianças. Talvez, justamente por ser voltado para o público infantil, o final deixe um pouco a desejar. Poderia ser melhor explorado, sem cair tanto no óbvio. Por outro lado, eu gostei muito do final, porque o filme é tão pesado e dramático, que o final suaviza um pouco a experiência.

Mas é na direção e na estética que o filme se destaca. É lindíssimo visualmente. As animações são muito bem feitas, misturam cores e desenhos quase aquarelados com stop motion. As cores são muito bem utilizadas, em alguns momentos muita sombra, em outros muita luz e cor. O traço dos desenhos não chega a ser caricato e engraçadinho, mas não é rude ou muito realista, ou seja, deixa claro que não se trata de uma simples animação infantil engraçadinha e nem um filme sério e muito sisudo. É tudo muito bem equilibrado para deixar claro quando a imaginação precisa voar solta e quando ela é castrada friamente.
Não tenho medo de dizer que, se não ganhar, certamente será indicado ao Oscar de melhor animação no ano que vem pelos efeitos visuais.

Outro fator que ajudou muito a compor o clima melancólico e intenso do filme foi a trilha sonora incidental, que ficou nas mãos de, ninguém menos que, Hans Zimmer em parceria com Richard Harvey. A delicadeza das trilhas incidentais são tocantes.

Em resumo, prepare-se para ver um filme exuberante e muito bem feito. E faz parte dessa exuberância e beleza, o seu quinhão de tristeza e questionamento. O que é mais valioso para você? Você ainda mantém acesa um pouco daquela ilusão infantil? Você se permite sonhar? Você se permite amar e ser amado?

Vá ao cinema assistir este belo filme pronto para derramar algumas lágrimas. Se você tem uma criança, leve-a com você. E, ao sair da sala de cinema, compre um sorvete para você, outro para ela e converse sobre o que vocês acabaram de viver naquela sala escura.

Se você conseguir se enxergar no sorriso daquela criança, e você vai conseguir se enxergar ali, o filme terá cumprido seu papel.

Super recomendado!