terça-feira, 29 de setembro de 2015

O LADO BOM DO FILME

Seção: Em Cartaz.

Sendo um grande fã de cinema desde muito jovem,  acompanhei algumas evoluções e retrocessos em várias esferas do cinema. Vi um diretor promissor como Tim Burton dar vida a grandes histórias e decair de maneira calamitosa em remakes desnecessários e espalhafatosos, de uns tempos para cá. Acompanhei também a evolução nítida de um grande talento como Richard Linklater, que deu vida ao irresistível casal Jesse e Celine, ir além de filmes românticos com o questionador Waking Life, o divertidíssimo Escola de Rock e o belo Boyhood.

Também acompanhei, e venho acompanhando, uma evolução interessantíssima na produção cinematográfica brasileira. Com o fim da ditadura militar, nos anos oitenta, as chanchadas, gradativamente, foram dando lugar a filmes carregados de críticas sociais. Nos anos noventa vieram produções como Central do Brasil e Auto da Compadecida, sempre exaltando um Brasil pobre. Destacaram-se filmes como Abril Despedaçado com uma linguagem mais poética, mas sempre mostrando o nordeste miserável. Depois, vieram Carandiru e Cidade de Deus. As produções melhoraram e novas linguagens foram adotadas. Mas ainda assim, não escapamos das críticas sociais. Até chegarmos nos tempos atuais, onde pipocam produções nacionais de qualidade, com grandes produções e roteiros que visam contar uma história, sem, necessariamente, fazer denúncias. O cinema brasileiro entendeu que também faz parte do jogo entreter o público.

Com isso em mente, fui ao cinema muito contente para assistir Entrando Numa Roubada, lançado neste ano, escrito e dirigido por André Moraes. Trata-se de um road movie de ação e comédia sobre roubos e trapaças. O trailer já havia despertado meu interesse e resolvi conferir o longa no cinema.
Vamos a ele então.



O filme conta a história de um grupo de amigos,  que fizeram um filme bem sucedido, mas acabaram todos em maus lençóis após serem enganados pelo produtor do filme, que ficou com todo o dinheiro arrecadado e se tornou pastor evangélico. Partindo daí, inicia-se uma sequência de enganações, trapalhadas e muitas cenas de ação em busca de vingança.
Walter é o diretor, Vitor é o roteirista, Eric e Laura são os atores e Alex é o produtor que enganou a todos.
Vitor ganha uma bolada como prêmio por um roteiro que escreveu e resolve juntar sua turma para filmar a história, que consiste em um trio que sai roubando postos de gasolina de um criminoso por vingança. Eric, quer se vingar de Alex e inventa com Walter uma história de filmar o roteiro com um novo método, ultra realista, e acabam saindo assaltando postos de gasolina para valer, juntando o dinheiro roubado, tudo articulado por Eric que quer acabar chegando até Alex para se vingar.
É um desses casos de filme dentro do filme.

É necessário começar dizendo que não se trata aqui de um grande filme. Ele se perde entre muitas pontas soltas da trama e personagens superficiais. O roteiro se faz valer de uma linguagem mais moderna, com narração em off de um dos personagens e várias reviravoltas. Porém, tudo é frouxo. A história vai se tornando rocambolesca e, a cada mudança na trama, razões para tais acontecimentos são deixadas de lado. As motivações dos personagens são fracas e, muitas vezes inverossímeis. Por exemplo, Laura e Vitor são levados a acreditar, por Eric e Walter, que os assaltos, perseguições...é tudo combinado. Mas a produção é tão desleixada, que qualquer um desconfiaria. A ingenuidade dos dois personagens é deprimente. O prêmio que Vitor ganha, ninguém explica de onde ele ganhou e como isso aconteceu. Acidentes fatais acontecem, policias morrem...e nada aparece na imprensa que faça com que eles sejam procurados por todos os lados.
Esses são alguns dos motivos que fazem com que o filme não seja convincente.
Mas existe o outro lado.

Apesar da superficialidade dos personagens, os atores estão muito à vontade em seus papéis e desempenham muito bem suas funções. O melhor deles é Marcos Veras, interpretando Alex com muito vigor, dando vida a um vilão inescrupuloso e, por vezes, engraçado. Lúcio Mauro Filho interpreta Walter e também se sai bem apresentando um jovem diretor com sérios problemas psicológicos tentando se manter são. Júlio Andrade é Eric, o ator indignado que busca vingança a qualquer preço. Deborah Secco é Laura, uma atriz ingênua e esforçada. Apesar do pouco com o que trabalhar no roteiro para embasar seus personagens, os atores se destacam em seus papéis.

André Moraes já é veterano no cinema nacional, mas como compositor de trilhas sonoras. Como diretor e roteirista é estreante. Ainda pode melhorar muito, mas já se mostra muito promissor. Apesar do roteiro cheio de falhas e pontas soltas, a direção e montagem do filme são saborosas. O ritmo alucinante, remetendo a Tarantino e Guy Ritchie, fazem com que o espectador não queira levantar da cadeira. As cenas de ação com efeitos especiais também são divertidíssimas. A fotografia com alguns ângulos fechados e contrastes ajudam a dar um clima e a trilha sonora, muito bem escolhida e bem utilizada, é a cereja no bolo.

Entre erros e acertos, o filme se mantém de pé e, se não se destaca muito, fica na média e faz valer o preço do ingresso pago. Indo além do filme em si, é muito legal perceber que o cinema brasileiro está se desenvolvendo e prezando pela diversidade, com ideias originais.
Se eu dei a entender que não gosto de filmes com críticas sociais no começo do texto, não me entenda mal. Eu gosto de cinema. E se o filme traz um retrato fiel de uma sociedade corrupta, mas é bem feito e conta a história com paixão e inteligência, eu vou gostar do filme, como adoro Cidade de Deus, Tropa de Elite e muitos outros. Mas também é legal podermos ver gente como o Fábio Porchat criando um drama tão bacana como o Entre Abelhas e comédias românticas divertidas como Meu Passado me Condena, o Afonso Poyart concebendo o surpreendente 2 Coelhos, o Heitor Dhalia com o tenso O Cheiro do Ralo, entre tantos outros.

Geralmente, o cinema pode ser um bom retrato da sociedade.
Se realmente for, podemos nos alegrar, pois estamos aprendendo a valorizar de verdade a diversidade.
Mas estamos só começando a aprender que tão importante quanto valorizar, é ter conteúdo.
Isso é uma crítica?
Entenda como quiser.
E vá ao cinema, de preferência para ver algum filme brasileiro.

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