Seção: Em Cartaz.
Você já reparou como é comum admirarmos e considerarmos bela alguma
obra de arte que transmita tristeza, desamparo ou solidão? Em todas as áreas.
Fotografias do Sebastião Salgado, telas do Monet, os tangos de Carlos Gardel,
os poemas de Baudelaire...e a lista se vai longa.
Talvez seja uma simples questão de identificação, ou desperte o
sentimento de pena. A verdade é que a tristeza faz parte de nós e, talvez, sua
força seja tão intensa que, simplesmente, não conseguimos minimizá-la ou
ignorá-la.
Aliás, aprendemos isso de forma muito didática e interessante com a
Pixar muito recentemente.
Pois bem. Sendo assim, fui ao cinema assistir a mais nova adaptação
para o cinema de O Pequeno Príncipe, o
clássico de Antoine de Saint-Exupéry, o livro de cabeceira de qualquer miss que
se preze. Uma obra muito particular, que parece não envelhecer e que, de fato,
é muito contundente. Sabendo disso, eu não esperava um filme leve e divertido.
Mas também não contava com a abordagem tão profunda apresentada.
Mas vamos com calma.
O Pequeno Príncipe (The Little Pince, no original) é uma produção francesa
e norte americana lançada em agosto de 2015 aqui no Brasil. Com direção de Mark
Osborne e roteiro de Irena Brignull e Bob Persichetti, o filme é muito
convincente e primoroso nos detalhes.
O filme já ganha pontos por não tomar o livro como roteiro pura e simplesmente.
Os roteiristas criaram uma história onde poderiam inserir o livro de maneira
honesta e direta. O filme começa contando a história de uma garotinha que tem
sua vida milimetricamente planejada pela sua mãe para que ela cresça e seja uma
adulta bem sucedida. Uma crítica válida sobre a obsessão do sucesso
profissional e dos padrões sociais a qualquer custo. Ao se mudarem de casa, mãe
e filha acabam tendo como vizinho um excêntrico senhor de idade que tem um
avião no quintal de casa e tenta fazê-lo funcionar, muitas vezes incomodando a
vizinhança. O velhinho e a garota acabam se aproximando e ele lhe mostra
algumas páginas do que seria uma espécie de diário. É onde o livro entra,
literalmente, pois o senhor de idade é o piloto que encontra o pequeno príncipe
no deserto e a história se desenrola à partir daí. Mas a história e as
parábolas do livro vão aparecendo enquanto a história da garotinha é contada,
sua amizade com o velho piloto, a mãe da garotinha que a força cumprir seu
rigoroso cronograma e como as duas histórias vão se entrelaçando.
A dupla de roteiristas é iniciante e se deu muito bem. Conseguiu contar
a história de maneira coesa e emocionante. Os diálogos do livro são muito
impactantes e foram muito bem aproveitados. Em paralelo, os diálogos entre a
garota e o velho piloto também são emocionantes. A carga dramática do roteiro
chega a impressionar e me fizeram pensar
como as crianças encarariam o filme. Afinal, é uma animação e é sim, uma
produção voltada para crianças. Talvez, justamente por ser voltado para o
público infantil, o final deixe um pouco a desejar. Poderia ser melhor
explorado, sem cair tanto no óbvio. Por outro lado, eu gostei muito do final,
porque o filme é tão pesado e dramático, que o final suaviza um pouco a experiência.
Mas é na direção e na estética que o filme se destaca. É lindíssimo
visualmente. As animações são muito bem feitas, misturam cores e desenhos quase
aquarelados com stop motion. As cores são muito bem utilizadas, em alguns
momentos muita sombra, em outros muita luz e cor. O traço dos desenhos não
chega a ser caricato e engraçadinho, mas não é rude ou muito realista, ou seja,
deixa claro que não se trata de uma simples animação infantil engraçadinha e
nem um filme sério e muito sisudo. É tudo muito bem equilibrado para deixar
claro quando a imaginação precisa voar solta e quando ela é castrada friamente.
Não tenho medo de dizer que, se não ganhar, certamente será indicado ao
Oscar de melhor animação no ano que vem pelos efeitos visuais.
Outro fator que ajudou muito a compor o clima melancólico e intenso do filme foi a trilha sonora incidental, que ficou nas mãos de, ninguém menos que, Hans Zimmer em parceria com Richard Harvey. A delicadeza das trilhas incidentais são tocantes.
Outro fator que ajudou muito a compor o clima melancólico e intenso do filme foi a trilha sonora incidental, que ficou nas mãos de, ninguém menos que, Hans Zimmer em parceria com Richard Harvey. A delicadeza das trilhas incidentais são tocantes.
Em resumo, prepare-se para ver um filme exuberante e muito bem feito. E
faz parte dessa exuberância e beleza, o seu quinhão de tristeza e
questionamento. O que é mais valioso para você? Você ainda mantém acesa um
pouco daquela ilusão infantil? Você se permite sonhar? Você se permite amar e
ser amado?
Vá ao cinema assistir este belo filme pronto para derramar algumas
lágrimas. Se você tem uma criança, leve-a com você. E, ao sair da sala de
cinema, compre um sorvete para você, outro para ela e converse sobre o que vocês
acabaram de viver naquela sala escura.
Se você conseguir se enxergar no sorriso daquela criança, e você vai
conseguir se enxergar ali, o filme terá cumprido seu papel.
Super recomendado!
Super recomendado!

Nenhum comentário:
Postar um comentário