terça-feira, 13 de outubro de 2015

GOOD VIBRATIONS

Seção: Em cartaz.

Estamos vivendo tempos difíceis. E não falo somente de crise política e financeira. Cada vez mais, vemos notícias, relatos e, até mesmo, sentimos na pele cenas de muito ódio e desprezo alimentados por preconceitos, ignorância e radicalismo. Fica difícil ter fé na humanidade, acreditar que as pessoas são boas.
Fica difícil acreditar que vale a pena fazer tudo o que for possível para salvar uma vida.
É por isso que o filme Perdido em Marte (The Martian), lançado neste ano, o mais recente trabalho de Ridley Scott, surpreende e vem muito a calhar.



Entrei na sala de cinema para assistir ao longa com baixas expectativas. Scott vem de um filme muito fraco, Prometheus, e sempre apresentou obras de ficção científica sombrias e desoladoras. E confesso que essas obras, como a franquia Alien, por exemplo, nunca me agradaram muito. Estava pronto para ver na tela um homem desiludido confinado num planeta sem quaisquer perspectivas.
Assim, fui surpreendido mais uma vez pela sétima arte.

Perdido em Marte é um filme vigoroso e muito leve, apesar das circunstâncias da história contada.
O longa conta a trajetória de Mark Watney, um astronauta que acaba sendo abandonado em Marte após um incidente que força a tripulação a deixar o planeta às pressas. Uma vez deixado para trás, ele precisa sobreviver por quatro anos, tempo necessário para que uma equipe de resgate chegue até ele. Acompanhamos sua rotina no planeta vermelho e, em paralelo, os esforços e politicagens da NASA para conseguir resgatá-lo.

De fato, o filme tem tudo para ser sombrio e pesado. Mas não é o que acontece. O roteiro de Drew Goddard, baseado no livro de Andy Weir, é leve e muito bem amarrado, sem se prender em pormenores científicos e explicações minuciosas que poderiam tornar a trama entediante. Goddard é um roteirista que usa a cultura pop a seu favor com maestria. Ele é responsável por filmes muito divertidos como Guerra Mundial Z, além de escrever alguns episódios da excelente série Demolidor, da Netflix.
Portanto, o roteiro apresenta um protagonista inteligente e bem humorado, que vai fazer tudo ao seu alcance para sobreviver, confiando que a NASA virá resgatá-lo. Ou seja, trata-se de um homem confiante e otimista. Entre seus monólogos em Marte e os diálogos entre a tripulação e o pessoal da Nasa, sempre tem uma ou outra referência pop, que dá muito mais sabor ao filme.

A direção de Ridley Scott é sempre muito bem executada, cuidadosa com os detalhes e com ótimos efeitos especiais (ainda que o 3D seja muito mal utilizado e quase nada acrescente á obra). É aqui onde a dramaticidade do filme se acentua, porém sem grandes exageros. Scott concebeu um Marte desértico e muito quente durante o dia, e gelado de noite. A fotografia é muito bem trabalhada, para passar a sensação de solidão, com planos bem abertos e, quando dentro das instalações espaciais, tudo sem muita cor nem som. A montagem também é digna de nota. O ritmo do filme é ótimo. Intercalando bem as cenas do personagem sozinho sobrevivendo em Marte e os esforços e conflitos da NASA para realizar o resgate.

Há também de exaltar o talento e carisma inesgotáveis de Matt Damon. Ele carrega o filme nas costas sem mostrar esforço nenhum. Seu carisma natural faz de Mark Watney um personagem muito fácil de se gostar. O que significa que você realmente torce muito por ele ao longo do filme. A atuação de Damon é primorosa, ele consegue ser otimista, mas também se mostrar desiludido e desesperado em alguns momentos.
O restante do cast é competente, mas nada que se sobressaia. Até mesmo o veterano e competente Jeff Daniels, que interpreta um dos responsáveis da NASA pela missão de resgate, fica meio apagado. Mas não é nada que comprometa o longa, já que todas as atenções estão mesmo voltadas para Matt Damon.

Para concluir, trata-se de um filme bem diferente do que estamos acostumados a receber de Ridley Scott quando se trata de sci-fi. Uma grata surpresa.
Um filme leve e divertido, que mostra a importância de não se perder a fé na vida. As metáforas se estendem ao longo do filme: saber encarar e vencer adversidades, aprender a lidar com as frustrações e derrotas. Não desistir. Recomeçar.

Perdido em Marte não é um filme que oferece apenas entretenimento de qualidade.
Ele nos traz alívio.
E, por isso, é muito bem vindo.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

NAVEGAR É PRECISO!

Seção: Sim, tem na Netflix!

Sabe aquela velha história de fazer uma coisa com coração, com alma? Não ter como objetivo principal dinheiro, ou reconhecimento, mas única e simplesmente satisfação pessoal?
Como um livro do Kerouac, ou um show do Paul McCartney, um disco do Rogério Skylab ou um filme do Cameron Crowe.
Às vezes acho que esse é o verdadeiro sentido da vida. Coisas feitas não por dinheiro ou reconhecimento. Mas porque fazer essa coisa faz com que você se sinta vivo.

Uma outra boa maneira de você visualizar o que eu estou tentando dizer aqui é assistindo ao excelente filme The Boat That Rocked (Os Piratas do Rock, aqui no Brasil).



Lançado em 2009, este longa britânico conta a história das rádios piratas que despejavam rock n' roll e pop aos ouvidos dos jovens ingleses cansados de música erudita e muita blá blá blá da BBC e demais rádios comerciais do Reino Unido.
Eram chamadas rádios piratas porque eram instaladas em velhos navios que ficavam ancorados nos gelados mares do norte da Inglaterra, a uma distância considerável da costa, longe das autoridades.
É em torno deste mundo que o roteiro do filme é ambientado, misturando realidade e ficção.

Um time de locutores que se revezam dia e noite na Radio Rock recebem a visita de Carl, enteado de Quentin, dono da rádio. Ali, entre sexo, disputas de egos e muito, mas muito mesmo, rock n' roll, Carl vai tentar descobrir quem é seu pai.
O humor britânico ácido e irônico dá o tom do filme, que não tem medo de ser politicamente incorreto e nem foge de clichês. Tudo na medida certa.
Ponto pra eles.

O crédito dessa rteceita de sucesso é de Richard Curtis, que escreveu e dirigiu o longa.
Curtis é um roteirista brilhante! Escreveu Quatro Casamentos e Um Funeral, O Diário de Bridget Jones, Simplesmente Amor e boa parte dos episódios da série de TV do personagem Mr. Bean.

Encabeçando o elenco está um dos melhores atores dos últimos tempos, o falecido Phillip Seymour Hoffman, que está impecável como The Count, um locutor apaixonado por rock n' roll.
O filme ainda tem os engraçadíssimos Bill Nighy e Nick Frost, além de vários atores não tão conhecidos, mas muito competentes.

Não preciso dizer que a trilha sonora é matadora, uma coletânea do que melhor se produziu em termos de pop e rock até 1967.

Esse é o tipo de filme que é complicadíssimo de se falar a respeito.
O filme é tão encantador e engraçado. Tão inspirador, tão divertido...que não dá pra ficar só no básico. Há a necessidade de citar cada personagem, cenas marcantes, cada canção maravilhosa da trilha sonora e assim por diante.
O que resultaria num texto enorme que ninguém aguentaria ler.

Portanto, em resumo, posso dizer o seguinte:
The Boat That Rocked é um filme brilhante, inspirador e muito engraçado.
Tem interpretações magníficas de atores como Phillip Seymour Hoffman e Nick Frost.
Foi escrito e dirigido pelo talentoso Richard Curtis, que escreveu Quatro Casamentos e Um Funeral.
Tem uma trilha sonora arrasadora.
É um filme que fala sobre amor às causas perdidas, sobre acreditar no que te faz feliz...e também sobre sexo, drogas e rock n' roll, porque ninguém é de ferro.

Se depois de ler isso você não se interessar pelo filme, sinceramente, não sei o que você está fazendo aqui lendo este blog.

Filme recomendadíssimo!

terça-feira, 29 de setembro de 2015

O LADO BOM DO FILME

Seção: Em Cartaz.

Sendo um grande fã de cinema desde muito jovem,  acompanhei algumas evoluções e retrocessos em várias esferas do cinema. Vi um diretor promissor como Tim Burton dar vida a grandes histórias e decair de maneira calamitosa em remakes desnecessários e espalhafatosos, de uns tempos para cá. Acompanhei também a evolução nítida de um grande talento como Richard Linklater, que deu vida ao irresistível casal Jesse e Celine, ir além de filmes românticos com o questionador Waking Life, o divertidíssimo Escola de Rock e o belo Boyhood.

Também acompanhei, e venho acompanhando, uma evolução interessantíssima na produção cinematográfica brasileira. Com o fim da ditadura militar, nos anos oitenta, as chanchadas, gradativamente, foram dando lugar a filmes carregados de críticas sociais. Nos anos noventa vieram produções como Central do Brasil e Auto da Compadecida, sempre exaltando um Brasil pobre. Destacaram-se filmes como Abril Despedaçado com uma linguagem mais poética, mas sempre mostrando o nordeste miserável. Depois, vieram Carandiru e Cidade de Deus. As produções melhoraram e novas linguagens foram adotadas. Mas ainda assim, não escapamos das críticas sociais. Até chegarmos nos tempos atuais, onde pipocam produções nacionais de qualidade, com grandes produções e roteiros que visam contar uma história, sem, necessariamente, fazer denúncias. O cinema brasileiro entendeu que também faz parte do jogo entreter o público.

Com isso em mente, fui ao cinema muito contente para assistir Entrando Numa Roubada, lançado neste ano, escrito e dirigido por André Moraes. Trata-se de um road movie de ação e comédia sobre roubos e trapaças. O trailer já havia despertado meu interesse e resolvi conferir o longa no cinema.
Vamos a ele então.



O filme conta a história de um grupo de amigos,  que fizeram um filme bem sucedido, mas acabaram todos em maus lençóis após serem enganados pelo produtor do filme, que ficou com todo o dinheiro arrecadado e se tornou pastor evangélico. Partindo daí, inicia-se uma sequência de enganações, trapalhadas e muitas cenas de ação em busca de vingança.
Walter é o diretor, Vitor é o roteirista, Eric e Laura são os atores e Alex é o produtor que enganou a todos.
Vitor ganha uma bolada como prêmio por um roteiro que escreveu e resolve juntar sua turma para filmar a história, que consiste em um trio que sai roubando postos de gasolina de um criminoso por vingança. Eric, quer se vingar de Alex e inventa com Walter uma história de filmar o roteiro com um novo método, ultra realista, e acabam saindo assaltando postos de gasolina para valer, juntando o dinheiro roubado, tudo articulado por Eric que quer acabar chegando até Alex para se vingar.
É um desses casos de filme dentro do filme.

É necessário começar dizendo que não se trata aqui de um grande filme. Ele se perde entre muitas pontas soltas da trama e personagens superficiais. O roteiro se faz valer de uma linguagem mais moderna, com narração em off de um dos personagens e várias reviravoltas. Porém, tudo é frouxo. A história vai se tornando rocambolesca e, a cada mudança na trama, razões para tais acontecimentos são deixadas de lado. As motivações dos personagens são fracas e, muitas vezes inverossímeis. Por exemplo, Laura e Vitor são levados a acreditar, por Eric e Walter, que os assaltos, perseguições...é tudo combinado. Mas a produção é tão desleixada, que qualquer um desconfiaria. A ingenuidade dos dois personagens é deprimente. O prêmio que Vitor ganha, ninguém explica de onde ele ganhou e como isso aconteceu. Acidentes fatais acontecem, policias morrem...e nada aparece na imprensa que faça com que eles sejam procurados por todos os lados.
Esses são alguns dos motivos que fazem com que o filme não seja convincente.
Mas existe o outro lado.

Apesar da superficialidade dos personagens, os atores estão muito à vontade em seus papéis e desempenham muito bem suas funções. O melhor deles é Marcos Veras, interpretando Alex com muito vigor, dando vida a um vilão inescrupuloso e, por vezes, engraçado. Lúcio Mauro Filho interpreta Walter e também se sai bem apresentando um jovem diretor com sérios problemas psicológicos tentando se manter são. Júlio Andrade é Eric, o ator indignado que busca vingança a qualquer preço. Deborah Secco é Laura, uma atriz ingênua e esforçada. Apesar do pouco com o que trabalhar no roteiro para embasar seus personagens, os atores se destacam em seus papéis.

André Moraes já é veterano no cinema nacional, mas como compositor de trilhas sonoras. Como diretor e roteirista é estreante. Ainda pode melhorar muito, mas já se mostra muito promissor. Apesar do roteiro cheio de falhas e pontas soltas, a direção e montagem do filme são saborosas. O ritmo alucinante, remetendo a Tarantino e Guy Ritchie, fazem com que o espectador não queira levantar da cadeira. As cenas de ação com efeitos especiais também são divertidíssimas. A fotografia com alguns ângulos fechados e contrastes ajudam a dar um clima e a trilha sonora, muito bem escolhida e bem utilizada, é a cereja no bolo.

Entre erros e acertos, o filme se mantém de pé e, se não se destaca muito, fica na média e faz valer o preço do ingresso pago. Indo além do filme em si, é muito legal perceber que o cinema brasileiro está se desenvolvendo e prezando pela diversidade, com ideias originais.
Se eu dei a entender que não gosto de filmes com críticas sociais no começo do texto, não me entenda mal. Eu gosto de cinema. E se o filme traz um retrato fiel de uma sociedade corrupta, mas é bem feito e conta a história com paixão e inteligência, eu vou gostar do filme, como adoro Cidade de Deus, Tropa de Elite e muitos outros. Mas também é legal podermos ver gente como o Fábio Porchat criando um drama tão bacana como o Entre Abelhas e comédias românticas divertidas como Meu Passado me Condena, o Afonso Poyart concebendo o surpreendente 2 Coelhos, o Heitor Dhalia com o tenso O Cheiro do Ralo, entre tantos outros.

Geralmente, o cinema pode ser um bom retrato da sociedade.
Se realmente for, podemos nos alegrar, pois estamos aprendendo a valorizar de verdade a diversidade.
Mas estamos só começando a aprender que tão importante quanto valorizar, é ter conteúdo.
Isso é uma crítica?
Entenda como quiser.
E vá ao cinema, de preferência para ver algum filme brasileiro.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

ALL YOU NEED IS LOVE...TO START.


Seção: Sim, tem na Netflix!

De tempos em tempos, nossa fé, nossa crença em nós mesmos e no mundo, é testada. Presenciamos, cada vez mais, todo o tipo de atrocidade. Desde maus tratos a animais até tortura e assassinato incentivados unicamente por preconceito e ignorância. E tais sentimentos se intensificam quando nos atingem diretamente. Um parente que morre de câncer prematuramente, alguém que você ama que te trai e te causa algum mal de maneira intencional, ou o simples fato de você se propor a fazer alguma coisa...qualquer coisa, por mais simples que seja, e falhar. Nessas horas você se pergunta:
“O que está errado neste mundo?”

Teoricamente, eu estou aqui para falar sobre um filme que eu assisti e gostei e quero sugerir para você. Teoricamente, você abriu este blog para ler sobre algum filme que você ainda não tenha visto e vai ver mais tarde, quando chegar em casa, do trabalho, e assistir enquanto come alguma besteira. Eu não posso falar por você e suas motivações.
Mas posso falar de mim.

Eu não venho aqui simplesmente para falar sobre um filme que eu gostei e acho que você vai gostar de ver também. Eu venho aqui para falar de mim. Venho aqui para liberar um pouco do turbilhão de pensamentos e sentimentos que me consomem diariamente. E eu faço isso com uma intenção que, se bem sucedida, causa uma consequência. Acredite ou não, eu venho aqui toda semana para tocar o seu coração. Eu escrevo essas linhas de madrugada pensando em várias pessoas que são especiais para mim e que podem gostar deste ou daquele filme. E fico torcendo para que essas pessoas leiam este texto e vejam o filme. Eu escrevo querendo tocar o coração de alguém que já viu o filme e que, ao ler este texto, se lembre de alguns trechos, e se emocione de novo. Esta é a intenção. Se esta intenção for minimamente bem sucedida, vem a consequência, que diz respeito ao meu bem estar diretamente. É quando alguém lê o texto, se comove de alguma maneira e eu fico sabendo disso. Seja por um comentário aqui no blog, uma curtida no facebook, uma palavra dita durante uma conversa entre amigos...
Não há sentimento melhor do que saber que eu consegui tocar um coração. Não há sorriso que baste para demonstrar tal satisfação.

E nós não sabemos como, exatamente, as coisas acontecem. Mas se a gente parar, mas parar mesmo, para prestar atenção ao nosso redor, vamos ver que tudo se conecta involuntariamente. Se eu bocejar na sua frente, você vai bocejar também. Se eu sorrir na sua frente, talvez você não sorria de imediato. Mas você vai lembrar do meu sorriso no meio do caminho para casa e vai sorrir pensando nisso. E, pode ser que, alguém que está ao seu lado no ônibus te veja sorrindo sozinho e acabe sorrindo discretamente também.
Nós somos parte de um todo.

Eu adoro saber que sou uma pessoa única. Cada vez mais, me reconheço como pessoa e desfruto da minha individualidade. Mas eu sei que, por mais que eu goste de ficar sozinho, eu preciso das pessoas. Eu preciso do amor. Preciso do carinho, preciso da ajuda, preciso dos conselhos, preciso das risadas, preciso dos cuidados. E também preciso amar, preciso dar carinho, preciso ajudar, preciso dar conselhos, preciso fazer rir, preciso cuidar. Não porque eu queira algo em troca. É porque, mais que tudo, meu corpo me diz isso tudo. Eu sinto falta.

É a reconciliação da ciência com a espiritualidade. Vivemos um mundo novo onde podemos acreditar em qualquer coisa. Existe tanta mudança, tantos avanços tecnológicos e filosóficos, que, apesar de toda a barbárie que ainda se faz presente em todo o mundo, ainda podemos acreditar que há um futuro promissor. Assim como o oceano, que aniquila toda uma cidade com um tsunami, mas que também alimenta milhares de pessoas e torna possível milhares de formas de vida, é feito de incontáveis gotas d’água, se todos acreditarem que mudanças são possíveis, podemos também tornar possível que muitas vidas sejam geradas e celebradas.
Quando John Lennon escreveu All You Need is Love, ele estava certo. Só faltou um complemento para tornar a canção perfeita.
Tudo o que você precisa é amor...para começar.
Com amor você começa a agir e pode fazer toda a diferença.

Tudo isso para dizer que o documentário I Am, do diretor  Tom Shadyac, acerta em cheio em sua proposta: Fazer com que o espectador pense na diferença que cada um faz no mundo.



Pode não ser um filme brilhante ou perfeito. Mas é bem escrito, impressiona por apresentar muitas informações científicas e algumas belas cenas.
O filme foi dirigido e escrito por Tom Shadyac, conhecido por dirigir grandes filmes de comédia como Ace Ventura, Patch Adams, Todo Poderoso, entre outros. Após sofrer um acidente sério, Shadyac passa por momentos sombrios e de muito questionamento. Quando começa a se recuperar, pega uma câmera e sai entrevistando grandes cientistas, filósofos e líderes religiosos sobre os problemas do mundo e da humanidade.
E o resultado de toda essa discussão é, ao mesmo tempo, dilacerante e maravilhoso.

Se eu não toquei seu coração com este texto, não tem problema. Não se sinta mal.
Mas, peço que você assista ao filme mesmo assim. Tenho certeza que ele pode te comover com mais facilidade.

Uma coisa eu posso te garantir. Vai valer a pena assistir.
E obrigado por estar aqui lendo.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

SOBRE O TEMPO

Seção: Em Cartaz

O tempo nos ensina muita coisa.
Eu nunca me canso de dizer o quanto sinto prazer em me perceber envelhecendo, tomando novas decisões, evitando alguns hábitos ruins que não me faziam bem no passado e, principalmente, me esforçando para simplificar tudo o que sempre achei muito complicado. Relacionamentos afetivos, vida profissional e etc. Se a gente encara a vida com simplicidade e sem grandes expectativas, tudo fica mais fácil.

Foi assim, sem grandes expectativas e esperando nada mais do que me divertir, que entrei numa sala de cinema para assistir Férias Frustradas (Vacation, título original), lançado em 2015. Com direção e roteiro de John Francis Daley e Jonathan M. Goldstein, o longa é baseado no filme Férias Frustradas (Vacation, título original), escrito por John Hughes, dirigido por Harold Ramis e lançado em 1983.



Primeiro, vamos falar brevemente sobre o Férias Frustradas de 1983. É um verdadeiro clássico. É uma das grandes comédias dos anos oitenta e um filme que não envelhece. Ainda hoje, é fácil de ser revisto e dar boas risadas. Foi criado por dois gênios do cinema para divertir as pessoas. Harold Ramis é responsável por filmes excelentes como Feitiço do Tempo, Ghostbusters e Máfia no Divã. Já o roteirista John Hughes escreveu a maioria dos grandes clássicos dos anos oitenta e noventa, como Clube dos Cinco, A Garota de Rosa Shocking, Antes Só do Que Mal Acompanhado, Gatinhas e Gatões, Curtindo a Vida Adoidado, Esqueceram de Mim, entre outros.
Isso significa que, se a dupla Daley e Goldstein esperava superar este original, teria que suar muito. Por sorte, eles não tiveram essa intenção.

Para falar então deste Férias Frustradas atual, vamos começar pela história.
A ideia dos roteiristas era revisitar o filme de 1983, sendo assim, criaram uma história onde Rusty Griswold resolve levar sua família, esposa e dois filhos, para uma viagem de carro pelos Estados Unidos que marcou sua infância: conhecer o Walley World, um parque de diversões com uma montanha russa gigantesca. No caso, Rusty é o filho de Clark Griswold, personagem de Chevy Chase no filme de 1983, onde Clark tem a mesma ideia, levar a família para Walley World. Assim está feita a conexão entre os dois filmes. Daí em diante, vão aparecer algumas referências ao filme original, mas, de maneira geral, é um filme novo, com piadas novas. E não deixa a desejar.

Uma das principais forças do filme, com certeza, é o elenco. Rusty é interpretado pelo ótimo Ed Helms, sempre muito engraçado interpretando tipos bobalhões bem intencionados. Sua esposa, Debbie, é interpretada por Christina Applegate, a eterna Kelly Bundy, do clássico seriado Married With Children, que também está muito bem no papel de esposa cansada, mas que tenta apoiar o marido em suas patacoadas. Os filhos do casal, James e Kevin, são interpretados por Skyler Gisondo e Steele Stebbins, respectivamente, e protagonizam algumas das cenas mais engraçadas do filme. Fora o núcleo familiar, o longa ainda conta com participações especiais e divertidíssimas de Charlie Day, um dos melhores atores de comédia da atualidade, e Chris Hemsworth, o Thor dos Vingadores, que faz uma participação impagável. Também participam brevemente o casal Chevy Chase e Beverly D’Angelo, para relembrar o filme de 83.

O roteiro não é ruim, mas tem seus defeitos. Funciona muito bem como esquetes, pois tem ótimas piadas. Mas não tem clímax, vai muito bem até certo ponto. Quando tem que dar aquela guinada para nos levar a um final empolgante, parece que o fôlego acaba. Mas não é algo que chega a prejudicar o filme como um todo. Tem um ritmo muito bom e, se não arranca gargalhadas a cada cena, mantém o expectador sempre sorrindo.
A parceria entre Daley e Goldstein é antiga, e vem trazendo ótimos resultados. Juntos eles escreveram os ótimos filmes Quero Matar Meu Chefe 1 e 2, a animação Está Chovendo Hambúrguer 2 e alguns episódios da divertida série Bones.
A direção dos dois funciona muito bem. Tem ritmo e ótimos cortes. Diferente do formato das comédias dos anos oitenta, com cenas longas, fades entre uma e outra, eles dão uma fluidez maior, explorando melhor a fotografia e dando mais agilidade ao filme.

Para concluir, é um filme que merece sim ser visto.
Quem viveu os anos oitenta e assistiu ao original de 1983, vai se divertir muito com as citações, a participação de Chevy Chase, a aparição do velho carro usado no filme original e coisas desse tipo.
Para quem é mais novo e não tem essa ligação, vai se divertir muito também, pois as piadas são muito boas, beirando o absurdo. Este é o grande trunfo da dupla Daley e Goldstein, eles conseguem criar situações tão absurdas que parecem tiradas de desenhos animados, e fazem piada com absolutamente tudo.

É um filme para ser encarado como a vida. Sem grandes expectativas e sem pensar no final. Apenas relaxe e aproveite a viagem.
Porque, no fim, é isso que faz tudo valer a pena.

Viver hoje.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

TUDO ACONTECE ONDE VOCÊ ESTIVER

Seção: Sim, tem na Netflix!

É muito legal entrar numa sala de cinema e se deparar com personagens heroicos, com poderes incríveis, ou vilões extremamente ardilosos e totalmente sem escrúpulos. Há também monstros, alienígenas, zumbis...personagens que você dificilmente vai encontrar andando pela rua.
É a magia do cinema. É fantasia.

Mas também faz parte do cinema nos apresentar personagens comuns. Gente que poderia ser comparada a mim ou a você. Personagens com quem você se identifica de imediato. Também faz parte do cinema nos emocionar, fazendo com que nos olhemos no espelho.

E neste aspecto, o diretor Cameron Crowe é um mestre.
Quem não se identificou com Tom Cruise em Jerry Maguire, ou com o inseguro Willian Miller em Almost Famous...? Até mesmo os personagens do Singles, jovens adultos crescendo, buscando relacionamentos...Este Singles, inclusive, um filme subestimado de Crowe.

Tocamos em três pontos cruciais no parágrafo acima para falar sobre o filme escolhido para hoje:
Cameron Crowe
Personagens "humanos demais"
Filme subestimado

Lançado em 2005, este filme foi recebido de forma morna por público e crítica. Mas apesar disso, é inegável que Elizabethtown (Tudo Acontece Em Elizabethtown, aqui no Brasil) é um filme brilhante, com personagens carismáticos, com profundidade e um roteiro emocionante.



O filme conta a história de Drew, que, após fracassar em seu grande projeto na empresa onde trabalha, recebe a notícia que seu pai está morto numa pequena cidade do Kentucky, Elizabethtown, e é convencido pela irmã e mãe a ir buscar o corpo para a cremação.

No avião, Drew conhece a encantadora aeromoça Claire que, por acaso, também é de Elizabethtown.
Acrescenta-se uma família com todos os tipos caricatos que toda família tem e que Drew não via há anos.
Pronto!
Temos uma história totalmente corriqueira, mas contada de forma inspirada.

Drew, o protagonista, é interpretado por Orlando Bloom (mais conhecido por Legolas, de Senhor dos Anéis e Will Turner de Piratas do Caribe). É um ator que, sinceramente, nunca me despertou grande admiração. Mas está impressionante neste filme. É o tipo de personagem que, pelo menos em uma cena, você vai se identificar com ele. Ele dá uma humanidade, uma realidade, ao personagem, que chega a emocionar. Principalmente nos momentos em que ele está sozinho na estrada.

A aeromoça Claire é interpretada por Kirsten Dunst, a eterna Mary Jane, de Homem Aranha. E ela está ainda mais apaixonante neste Elizabethtown. Uma garota sensível e sincera, mas que parece sempre esconder alguma coisa...algum sentimento que não quer que as pessoas percebam. A interpretação dela aqui está espetacular.

Mas todos os créditos vão para Cameron Crowe.
Um dos poucos diretores autorais da atualidade, e um dos mais talentosos, diga-se de passagem.
Crowe escreve e dirije este filme com uma riqueza de detalhes impressionante.
A começar pelo roteiro. Interessante, cheio de diálogos irresistíveis, voltas e reviravoltas, surpresas, um humor delicado que permeia o filme todo, mas também uma carga dramática intensa.
Nunca vi ninguém falar sobre fracasso e busca por superação com tanta humanidade como Cameron Crowe consegue fazer.

Para completar, o longa conta com uma trilha sonora maravilhosa, com Tom Petty, The Hollies, The Temptations, Elton John, Ryan Adams...
A fotografia do filme é cuidadosa, principalmente destacando a paisagem ao longo da viagem de Drew pelos Estados Unidos.
E, por fim, a montagem é esperta, sem exageros de cortes, ou flash backs forçados deixa o filme leve, com muita naturalidade.

É um filme que todo mundo deveria ver.
Porque todo mundo já fracassou feio.
Todo mundo já pensou no pior.
Todo mundo é, pelo menos um pouco, inseguro.
Todo mundo luta pra se reerguer.
Todo mundo chora.
Todo mundo se apaixona.
Todo mundo se aventura.

Todo mundo vive. E sofre as consequências boas e ruins de viver.

Tudo acontece em Elizabethtown.
Tudo acontece em São Paulo.
Tudo acontece em Marília.
Tudo acontece, seja lá onde você viva.

Filme mais que recomendado, obrigatório!

terça-feira, 1 de setembro de 2015

SOBRE COISAS BELAS E TRISTES

Seção: Em Cartaz.

Você já reparou como é comum admirarmos e considerarmos bela alguma obra de arte que transmita tristeza, desamparo ou solidão? Em todas as áreas. Fotografias do Sebastião Salgado, telas do Monet, os tangos de Carlos Gardel, os poemas de Baudelaire...e a lista se vai longa.
Talvez seja uma simples questão de identificação, ou desperte o sentimento de pena. A verdade é que a tristeza faz parte de nós e, talvez, sua força seja tão intensa que, simplesmente, não conseguimos minimizá-la ou ignorá-la.
Aliás, aprendemos isso de forma muito didática e interessante com a Pixar muito recentemente.

Pois bem. Sendo assim, fui ao cinema assistir a mais nova adaptação para o cinema de  O Pequeno Príncipe, o clássico de Antoine de Saint-Exupéry, o livro de cabeceira de qualquer miss que se preze. Uma obra muito particular, que parece não envelhecer e que, de fato, é muito contundente. Sabendo disso, eu não esperava um filme leve e divertido. Mas também não contava com a abordagem tão profunda apresentada.
Mas vamos com calma.



O Pequeno Príncipe (The Little Pince, no original) é uma produção francesa e norte americana lançada em agosto de 2015 aqui no Brasil. Com direção de Mark Osborne e roteiro de Irena Brignull e Bob Persichetti, o filme é muito convincente e primoroso nos detalhes.

O filme já ganha pontos por não tomar o livro como roteiro pura e simplesmente. Os roteiristas criaram uma história onde poderiam inserir o livro de maneira honesta e direta. O filme começa contando a história de uma garotinha que tem sua vida milimetricamente planejada pela sua mãe para que ela cresça e seja uma adulta bem sucedida. Uma crítica válida sobre a obsessão do sucesso profissional e dos padrões sociais a qualquer custo. Ao se mudarem de casa, mãe e filha acabam tendo como vizinho um excêntrico senhor de idade que tem um avião no quintal de casa e tenta fazê-lo funcionar, muitas vezes incomodando a vizinhança. O velhinho e a garota acabam se aproximando e ele lhe mostra algumas páginas do que seria uma espécie de diário. É onde o livro entra, literalmente, pois o senhor de idade é o piloto que encontra o pequeno príncipe no deserto e a história se desenrola à partir daí. Mas a história e as parábolas do livro vão aparecendo enquanto a história da garotinha é contada, sua amizade com o velho piloto, a mãe da garotinha que a força cumprir seu rigoroso cronograma e como as duas histórias vão se entrelaçando.

A dupla de roteiristas é iniciante e se deu muito bem. Conseguiu contar a história de maneira coesa e emocionante. Os diálogos do livro são muito impactantes e foram muito bem aproveitados. Em paralelo, os diálogos entre a garota e o velho piloto também são emocionantes. A carga dramática do roteiro chega a impressionar e  me fizeram pensar como as crianças encarariam o filme. Afinal, é uma animação e é sim, uma produção voltada para crianças. Talvez, justamente por ser voltado para o público infantil, o final deixe um pouco a desejar. Poderia ser melhor explorado, sem cair tanto no óbvio. Por outro lado, eu gostei muito do final, porque o filme é tão pesado e dramático, que o final suaviza um pouco a experiência.

Mas é na direção e na estética que o filme se destaca. É lindíssimo visualmente. As animações são muito bem feitas, misturam cores e desenhos quase aquarelados com stop motion. As cores são muito bem utilizadas, em alguns momentos muita sombra, em outros muita luz e cor. O traço dos desenhos não chega a ser caricato e engraçadinho, mas não é rude ou muito realista, ou seja, deixa claro que não se trata de uma simples animação infantil engraçadinha e nem um filme sério e muito sisudo. É tudo muito bem equilibrado para deixar claro quando a imaginação precisa voar solta e quando ela é castrada friamente.
Não tenho medo de dizer que, se não ganhar, certamente será indicado ao Oscar de melhor animação no ano que vem pelos efeitos visuais.

Outro fator que ajudou muito a compor o clima melancólico e intenso do filme foi a trilha sonora incidental, que ficou nas mãos de, ninguém menos que, Hans Zimmer em parceria com Richard Harvey. A delicadeza das trilhas incidentais são tocantes.

Em resumo, prepare-se para ver um filme exuberante e muito bem feito. E faz parte dessa exuberância e beleza, o seu quinhão de tristeza e questionamento. O que é mais valioso para você? Você ainda mantém acesa um pouco daquela ilusão infantil? Você se permite sonhar? Você se permite amar e ser amado?

Vá ao cinema assistir este belo filme pronto para derramar algumas lágrimas. Se você tem uma criança, leve-a com você. E, ao sair da sala de cinema, compre um sorvete para você, outro para ela e converse sobre o que vocês acabaram de viver naquela sala escura.

Se você conseguir se enxergar no sorriso daquela criança, e você vai conseguir se enxergar ali, o filme terá cumprido seu papel.

Super recomendado!

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

CINEMA DE BOM GOSTO

Seção: Sim, tem na Netflix!

Não dá para negar. Trabalho é trabalho, nunca vai ser uma coisa divertida (caso contrário, não se chamaria trabalho, certamente). Porém, existe uma minoria de pessoas que tem a sorte e o privilégio de trabalhar fazendo uma coisa com a qual se identificam imensamente, que acreditam naquilo e conseguem ter prazer no trabalho.
Mas, como eu disse, é uma minoria. Para a maioria de nós, que trabalha para pagar as contas, nos resta aproveitar um pouco desse dinheiro para fazer coisas que a gente realmente gosta. Como ir ao cinema, por exemplo.

Eu não pensei em nada disso quando entrei numa sala de cinema, no meio do ano passado, para assistir o filme Chef, atualmente disponível no catálogo a Netflix.



Eu pouco sabia sobre o filme. Sabia que era uma comédia do Jon Favreau, diretor dos três Homem de Ferro, com o Robert Downey Jr. no elenco e que contava uma história sobre um chef de cozinha. E o fato é que, no fim das contas, eu saí do cinema muito satisfeito e revi o filme recentemente na TV e me diverti bastante.
Vamos ao filme.

Começo dizendo que é um filme óbvio. Não espere surpresas, um roteiro mirabolante cheio de reviravoltas ou algo parecido. Trata-se de um misto de comédia romântica, road movie e drama familiar. Em resumo, um chef renomado trabalha num restaurante conceituado de Los Angeles, mas perde o emprego por causa de uma confusão no Twitter e acaba indo até Miami para conseguir um trailer e ganhar dinheiro com um food truck. No meio disso, ele tenta se aproximar de seu filho pré adolescente e conviver com sua ex-esposa.

Como eu disse, é um filme bem óbvio. Depois da primeira meia hora, você já tem uma boa ideia de como tudo vai terminar. Mas, como eu sempre digo, o caminho que nos levará até este final é o que importa. E foi neste caminho que Jon Favreau acertou a mão.

Favreau escreveu, produziu, dirigiu e protagonizou o longa. Acho que isso já explica muita coisa. Sem medo de ser piegas, é um filme com muito amor envolvido. Certamente, era uma coisa que ele queria muito fazer e só conseguiu realizar depois de ganhar créditos na indústria cinematográfica com os filmes do Homem de Ferro e respaldo do próprio Downey Jr. (sabidamente, amigo de Favreau). E o legal é que ele não pirou com isso. Não quis fazer uma obra de arte, uma coisa experimental, com fotografia rebuscada. Tudo foi feito na simplicidade, com muita leveza.

O roteiro é linear e bem escrito. Não tem exageros. É engraçado na medida, tem bons diálogos e conduz o espectador com eficiência.  A direção também não tem grandes truques. Favreau apostou na simplicidade e beleza. O filme é muito alegre e colorido, até porque há muito da cultura latina do sul dos Estados Unidos na história, pois eles passam por Miami, New Orleans, Atlanta...onde a cultura cubana, porto riquenha e mexicana são muito presentes.
As atuações são o ponto alto do filme, com certeza. O elenco é estelar. O próprio Jon Favreau protagoniza o longa interpretando o chef Carl Casper e se mostra muito à vontade frente às câmeras. Scarlett Johanssen está ótima interpretando Molly, amiga e confidente de Carl, Robert Downey Jr. faz uma participação bem engraçada interpretando um empresário excêntrico, Dustin Hoffman é o dono do restaurante onde Carl trabalha e a Sofia Vergara está irresistível como Inez, a ex-esposa de Carl.

Ainda entra nesta receita uma trilha sonora saborosíssima, com muita música latina, rumbas e salsas, além de um pouco de southern rock e blues.

Todos esses elementos combinados, resultam num filme divertido e empolgante. Desses que você pode ver bem mais de uma vez sem se cansar, ideal para um domingo de tarde sem nada para fazer.

Eu tenho uma percepção muito pessoal sobre este filme. Foi a impresão que eu tive ao assistí-lo no cinema. Sinto que o filme é tão fácil de agradar porque foi feito com muita alegria. Tive a impressão que Jon Favreau realizou esse projeto como uma realizaão pessoal, sem pensar muito no retorno da indústria cinematográfica. Me parece que ele fez tudo do jeito dele, ele sabia tão bem como ele queria cada detalhe, que ficou tudo parecendo muito natural na tela.

Da mesma maneira que, após assistir The Wonders, o divertidíssimo filme de Tom Hanks, eu fiquei louco para montar uma banda e tocar por aí melodias dançantes, também saí do cinema super afim de aprender a cozinhar e ver beleza na gastronomia depois de assistir Chef. Com certeza, este filme me influenciou muito quano tomei a decisão de fazer o curso de gastronomia do Senac no começo deste ano, que realizei com êxito (sic).
Só isso, já faz dele, um filme valioso.
Valeu muito a pena assistir!
Bom apetite.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

ACERTOU NO CORAÇÃO (E EXPLODIU MINHA CABEÇA)

Seção: Em Cartaz.

Antes de falarmos sobre o filme propriamente, falemos brevemente sobre cinema em geral.
Para quem não sabe, eu moro numa cidade de pouco mais de duzentos mil habitantes. Sendo assim, as opções de filmes em cartaz nos dois cinemas da cidade são bem limitados. São sempre blockbusters e que ficam em cartaz por semanas. Quando temos a sorte de aparecer algum filme diferente, de algum autor pouco conhecido ou de fora das grandes corporações, há de se aproveitar de imediato, pois ficam, no máximo, uma semana em cartaz.

É o capitalismo. Eu entendo. Da mesma maneira, também consumo vorazmente os tais blockbusters! Fui ao cinema e me diverti assistindo o novo Jurassic Park, ou os filmes da Marvel. Mas de vez enquando, faz bem respirar outros ares e assistir filmes diferentes, com conceitos e linguagens diferentes. Para isso, infelizmente, é necessário ir a São Paulo e procurar aqueles poucos cinemas que apresentam uma programação diferente, exibindo filmes estrangeiros (franceses, argentinos...), documentários e filmes independentes.

Foi num desses cinemas de São Paulo que eu vivi mais uma grande experiência numa sala de cinema e vim aqui contar e recomendar para você.



Na Próxima, Acerto no Coração (no original, La Prochaine Fois Je Viserai le Coeur) é um filme francês lançado em 2014. Confesso que, quando li o título do filme, sem saber sinopse e nem nada, pensei tratar-se de um filme romântico...algum drama sobre um amor não correspondido. Esta foi a primeira surpresa: o filme é baseado em acontecimentos reais, conta a história de um serial killer que matou várias garotas entre 1978 e 1979 na região de Oise, norte da França.

O longa é escrito e dirigido por Cédric Anger, um diretor muito competente, responsável por filmes como O Pequeno Tenente e O Homem que Elas Amavam Demais, ambos com boa repercussão aqui no Brasil. Mas é em Na Próxima, Acerto no Coração que ele alcança, de fato, uma grandiosidade cinematográfica. Tudo no filme funciona bem. A ambientação, o roteiro, a montagem e fotografia, as atuações e uma tensão contínua devastadora!

Para começar, o espectador na sala de cinema é transportado para a época em que a história se passa, o final dos anos 70. Não sei dizer se foi o uso de filtros na objetiva das câmeras, efeitos de computação na pós produção ou algo do tipo, mas o filme parece ter sido filmado naquela época. Não só a qualidade da imagem, mas a fotografia é muito calcada nos filmes da época, com câmera tremida em momentos de tensão, cortes secos e algumas cenas longas em plano sequência. Outra característica que ajuda a dar um clima desolador é que a fotografia valoriza muito as cores frias. Não há vivacidade no filme. Tudo é meio mórbido, cinzento ou azulado.

Outra surpresa vem logo no início do filme. Nas duas primeiras cenas, já é revelado quem é o assassino, no que ele trabalha e como é sua rotina. Não tem aquele mistério de não saber quem é o assassino. Logo de cara, o espectador já fica o conhecendo. A tensão só cresce à medida que o filme avança e as chances de ele ser pego aumentam. Este é o grande trunfo do roteiro. Apresentar com profundidade o assassino, porém, não fazer com que o espectador simpatize com ele. Em momento algum você vai torcer por ele. Por isso, o filme é tão pesado. As cenas de violência vão se repetindo. A cada garota que ele mata, fica mais evidente sua loucura.

Guillaume Canet interpreta o personagem principal, Franck Neuhart, de maneira perturbadora. Não deve ser fácil dar vida a um personagem tão complexo, com uma dupla personalidade tão marcante, com tantos problemas para se relacionar, tão amargo e introvertido, porém, muito inteligente. Ana Girardot também se destaca como Sophie,  a garota que trabalha para Franck e acaba se apaixonando por ele.

Com certeza, é um filme que, para ser absorvido mais intensamente, funciona melhor na sala de cinema. A imersão na história é total. Se por um lado, o espectador se envolve com a história, por outro, a tensão ininterrupta faz com que o filme pareça ter bem mais que as corriqueiras duas horas de duração (não que isso seja demérito). Enquanto o filme está sendo exibido, mal se ouve as pessoas respirando na sala, tamanha a tensão. É uma experiência angustiante, mas maravilhosa de se viver. Coisas que só o cinema de verdade faz por você.

Saí da sala de cinema impressionado. Observei que as pessoas conversavam baixinho ao sair da sala, muitos respirando fundo, aliviados. Me lembrei muito de quando assisti Seven no cinema e tive a mesma experiência de tensão, principalmente com aquele final desesperador.

Voltando ao começo deste texto, eu adoro e me divirto muito com as grandes produções de Hollywood. Compro as ideias e entro na dança, vibro vendo dois dinossauros gigantes brigando, ou super heróis combatendo alienígenas.
Mas, também faz muito bem para a alma assistir um filme autoral tão bem feito e ter uma experiência de imersão tão impactante numa sala de cinema.
Seja de Hollywood, da França, da Argentina ou do Brasil, nada é mais valioso que uma história bem contada e um saco de pipocas para acompanhar a viagem.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

HISTÓRIA SEM FIM

Seção: Sim, tem na Netflix!
Acredito que viver em sociedade nunca foi fácil e jamais será. Somos tão diferentes. Minha maneira de pensar pode ser oposta à sua. E é engraçado como, sendo tão diferentes, somos todos iguais. Somos seres humanos afim de sobreviver, ser amados, ter uma vida confortável, acreditar no que quisermos e nos expressar.
O problema é que muita gente, desde que o mundo é mundo, acha que é melhor que o outro. E tenta convencer mais gente de que isso é verdade. No antigo Egito, os reis e faraós já se diziam superiores, faziam com que algumas pessoas se convencessem de que aquilo era verdade e escravizavam aqueles que julgavam inferiores. Com certeza isso já acontecia antes dos egípcios, mas não há registros históricos. E isso seguiu acontecendo mundo afora desde então em escalas cada vez maiores, isso é fato consumado.
Até que no século vinte, começaram a aparecer ideias de igualdade de raça e credo com uma frequência cada vez maior. Pessoas passaram a defender tais ideais, muitas vezes levando-os às últimas (e trágicas) consequências. Passamos pelo Holocausto, pelo Muro de Berlim, pelo Apartheid e o mundo foi ficando cada vez mais consciente de que a justiça e a paz só podem, de fato, serem estabelecidas, com a igualdade entre toda a humanidade.
Hoje, são raros os casos de preconceito e ideais de supremacia racial. #sqn
Justamente porque não é bem assim, que o filme A Outra História Americana continua impressionante e imensamente realista, mesmo depois de quase vinte anos de seu lançamento.


A Outra História Americana (no original, American History X) foi lançado em 1998. Conta a história de Derek e Danny Vinyard, dois irmãos que acabam entrando numa gangue de skinheads neo-nazistas, após a morte de seu pai. Derek, o mais velho, é um líder nato, mas acaba preso por matar dois negros. Danny, o mais novo, idolatra o irmão mais velho e parece seguir o seu caminho. Mas na prisão, Derek percebe o mundo como ele realmente é. Todo mundo é igual, principalmente quando se trata de maldade. Quando sai da prisão, ele precisa fazer com que seu irmão mais novo não trilhe o mesmo caminho que o levou a ser preso.
Sim, é uma temática bem pesada, e o filme não fica atrás. É denso, angustiante, porém, conta a história de maneira irresistível, com flashbacks e narrações em off de Danny. O Roteiro é de David McKenna, um excelente contador de histórias que também escreveu o roteiro do divertido filme Profissão de Risco. McKenna é detalhista nos diálogos e sabe do poder das palavras, mostrando como uma conversa na mesa de jantar entre pais e filhos, aparentemente inofensiva, pode carregar uma dose gigantesca de preconceito e influenciar um jovem inseguro, com sua personalidade ainda em formação. A fluidez da história contada de maneira entrecortada por flashbacks é instigante e consegue prender o espectador.
A direção é de Tony Kaye, um diretor com muita experiência em documentários. Isso quer dizer que o filme tem cenas bem fortes e realistas. Mas também, Kaye foi o responsável pela fotografia, e o fez de maneira brilhante. Os flashbacks em preto e branco são esteticamente incríveis e muitas outras cenas têm uma fotografia linda. A estética de todo o longa é invejável.
Para completar, as atuações estão no mesmo alto nível do roteiro e direção. Edward Norton interpreta o protagonista Derek Vinyard. Norton está em seu auge neste filme. A diferença de personalidade de antes e depois da prisão que ele consegue demonstrar somente com a expressão facial é impressionante. E ele ainda viria a se superar no ano seguinte no espetacular Clube da Luta. Edward Furlong, mas conhecido por interpretar John Connor no Exterminador do Futuro 2, também está ótimo no papel de Danny, um garoto confuso tentando ser aceito. O filme ainda conta com as ótimas atuações de Beverly D'Angelo, Avery Brooks, Guy Torry, Jennifer Lien e Fairuza Balk.
Assisti este filme pela primeira vez na época de seu lançamento. Eu tinha uns 16 ou 17 anos e lembro que fiquei impressionado. Acho que foi a primeira vez que tomei consciência que, depois de tudo o que vivemos e estudamos nos livros de história, ainda tem gente que compra o idealismo absurdo e desumano propagado pelos nazistas. A cena em que o personagem Derek Vinyard mata cruelmente dois negros na calçada de sua casa não saiu da minha cabeça desde então.
Mas então, por que assistir um filme tão perturbador? Porque precisamos ser constantemente lembrados que esse tipo de violência, em escalas menores ou maiores, acontece no mundo todo, inclusive no seu bairro, na sua rua, numa frequência alarmante, ainda hoje em dia. E, como o filme bem mostra, não se trata somente de sociopatas doentes com pensamentos extremos. Trata-se de conversas inocentes no balcão do bar, na mesa do almoço ou na hora do café durante o trabalho. Não se trata apenas de negros sendo desrespeitados. São imigrantes em geral que não são tratados com humanidade, gays brutalmente agredidos, deficientes físicos tratados com descaso...a lista vai longe.
A Outra História Americana mostra que qualquer um pode ser iludido num momento de vulnerabilidade. Que quanto mais você se envolve, mais difícil é sair ileso. Que quando a indignação vira ódio, nada pode ser justificável. Mostra que viver em sociedade é mais difícil do que se imagina. Mas é possível.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

DE DENTRO PARA FORA

Seção: Em Cartaz.

A produção cinematográfica tem mudado muito.
Enquanto despontam novas e criativas histórias no cinema latino americano (especialmente Argentina e Brasil), Hollywood parece que vem perdendo a mão quando o se fala de cinema autoral, original.
É verdade que grandes produções vem sendo realizadas com êxito. Mas, são todas baseadas em histórias conhecidas. Recentemente, assistindo aos trailers numa sala de cinema, vi que vem por aí um novo filme contando a história do Peter Pan, toneladas de filmes fielmente baseadas em histórias em quadrinhos estão por vir...já fizeram remake de Mad Max, reciclaram O Exterminador do Futuro, Jurassic Park...tudo muito legal, admito. Grandes efeitos e diversão garantida na sala de cinema.

Mas de vez enquando, bate aquela saudade de um roteiro original. Uma história nova que ninguém contou ainda, capaz de te emocionar, te fazer sorrir, gargalhar, refletir.
Isso faz uma falta danada.

Eis que fui esses dias ao cinema ver a mais recente produção da Disney/Pixar, Divertida Mente (no original, Inside Out - um título muito melhor que esta tradução porca, diga-se) lançado em 2015, escrito e dirigido pela dupla Pete Docter e Ronaldo Del Carmen.
Vale uma ressalva sobre esta dupla. Peter Docter escreveu os maiores clássicos da Pixar: Toy Story (e suas sequências) Monstros SA, Wall E e UP - Altas Aventuras. Ronaldo Del Carmem é diretor de arte e e responsável por Universidade Monstros, Ratatouille, UP - Altas Aventuras e alguns episódios do saudoso desenho animado da Warner Freakazoid.
Ou seja, já começamos bem!


Já tenho que começar dizendo que o filme é encantador.
Conta a história da pequena Riley, uma garotinha feliz, apaixonada por hóquei no gelo que precisa se mudar de sua cidadezinha natal no frio estado de Minessota para a ensolarada San Francisco, California. Essa mudança se junta a fase complicada da transição da infância para a pré-adolescência.
Isso tudo é mostrado da perspectiva dos sentimentos de Riley: A Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Nojinho.
O espectador acompanha como funciona a cabeça e os sentimentos da criança. Como são armazenadas as memórias, os principais pilares da personalidade que começa a se formar, a amizade, família, o hóquei e a diversão.

Só por esta plote, o longa já desponta como o filme mais criativo do ano!
Mas vai muito além.

À medida que a trama vai avançando, as memórias de Riley são abaladas, a Tristeza começa a imprimir sua marca enquanto a Alegria tenta tomar conta de tudo. O que faz deste roteiro algo impressionante. Questionador, introspectivo...tão palpável para qualquer um. E tudo isso com muita leveza. Um filme voltado para as crianças, mas feito para atingir os adultos.

Vi o filme dublado em português. E, mais uma vez, os brasileiros acertaram em cheio e fizeram uma dublagem incrível usando celebridades. Para ficar nos três principais, Miá Mello dublou a Alegria, Otaviano Costa o Medo e Dani Calabresa, divertidíssima e irreconhecível dublou a Nojinho. Mas toda a dublagem está incrível e merece os parabéns!

Como sempre, a Pixar caprichou na arte. Muitas cores nas cenas de diversão, mas soube usar sobretons e muitas sombras nos momentos mais tensos e ótimos ângulos.

Eu sei, é muito elogio, e parece exagero.
Mas não é. Trata-se de um filme belíssimo que faz qualquer cidadão de bem que já passou por desilusões, tristezas e momentos de descrença e medo, assim como teve uma infância repleta de maluquices, brincadeiras e muita imaginação ir fatalmente às lágrimas.

Eu posso dizer que saí do cinema de alma lavada e acabei refletindo bastante sobre o meu crescimento. Como a tristeza, sim a tristeza, fez de mim uma pessoa melhor e mais serena hoje. Percebi que essa harmonia de sentimentos é algo inalcançável, mas delicioso de se buscar.

Hoje, antes de dormir, pense que cada um dos seus sentimentos, a Alegria, o Medo, a Raiva, o Nojinho...cada um é uma pessoa. Feche os olhos e imagine essas pessoinhas todas dentro de você se abraçando. Tenho certeza que você vai se sentir bem.
E se você tiver visto o filme, e ao fazer isso, escorrer uma lágrima, não se preocupe.
São eles deixando tudo limpinho aí dentro para você dormir bem e ter ótimos sonhos.

Boa noite.